O ZÉ CARIOCA, QUE CHIQUE!, ACABOU VIRANDO POODLE…

Publicado: 13 de abril de 2009 em Opiniões

"Lula é o cara e a Rainha, a coroa."
José Simão, humorista, Waldo Luís Viana*
 
         Obama positivamente não errou. Disse o que todos os seus iguais estavam sentindo. Lula é mesmo o gênio da raça, o rei da metáfora, o maior governante do planeta!

 
         "That´s my man" -  exclamou o presidente democrata, numa deferência típica da gíria norte-americana, que quer dizer, mais ou menos, "esse é meu chapa" ou o nosso mais rastaquera "esse é o homem" e não o que a imprensa ufanista traduziu, como se Barack houvesse dito "o máximo" ou "o rei da cocada"…
 
         Mesmo assim, a mídia subserviente preferiu focalizar o comentário como exagero festivo e não como metáfora ilusória,  proposital e calculada de alguém que reconhece o devido lugar de nosso desenvolto mandatário ao lado dos líderes mundiais.
 
         Malgrado tantos esforços, nossos amestrados do jornalismo estão sonhando! Com todos os rapapés, que antes não custavam nada, mas agora custam muito na diplomacia internacional, o país não conseguiu nada de significativo no exterior. Não emplacou nenhum dirigente em comunidades multilaterais dependentes de voto, nem conseguiu o tão almejado assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas. De concreto nada, enquanto a política externa procura criar um cenário de simulacro, em que pareça que o Brasil é o mais influente  dos países emergentes, hoje chamados "BRICs", acima da China, Rússia e Índia, que frequentam o seleto grupo de possuidores de bombas nucleares e tecnologias de dupla-face (uso civil e militar).
 
         A reação de Obama é proporcional, sem dúvida, à importância das informações que recebeu, antes de encontrar, pela primeira vez, o nosso presidente, em Washington.
 
         Qualquer país sério tem mais de um serviço secreto e o presidente norte-americano é abastecido com toda a sorte de inside informations sobre o Brasil e seu trêfego presidente. Com a CIA e a NSA em pleno funcionamento, e que não precisam pedir desculpas por fazer escutas telefônicas e eletrônicas, Obama recebeu, como num filme de Hollywood, toda a sorte de informações sobre o "tal Lula" e sua personalidade vaidosa e ansiosa por popularidade fácil..
 
         Daí a inflação de elogios em pleno palco internacional, que enche  de orgulho e vento o ex-operário, cujas deficiências intelectuais o remetem a acreditar que seja realmente o máximo e que recebe exatamente o que deseja do presidente da nação mais importante do planeta. Obama, inclusive, foi aluno de um ministro do atual governo, em Harvard, que, além de mal falar o português, afirmou em inesquecível artigo, em 2005, que o governo Lula foi o mais corrupto da história desse país! Esta sim, uma hipérbole da qual não discordo: "nunca nezte paiz"!
 
         Não houve outra alternativa, de acordo com o que inspirava o marido de Michelle, senão ressuscitar, para consumo externo, o Zé Carioca, personagem dos anos 40 do século passado, aquele brasileiro manhoso, inzoneiro, cachaceiro, que gostava de feijoada, samba e futebol, inventado pelos norte-americanos para aproximar o país aliado na 2ª Guerra Mundial, agora transfigurado na figura sorridente e melíflua do Lulinha paz e amor!
 
         O governo dos Estados Unidos tem interesse explícito em inflar o personagem, na América Latina, para deter o perigo, este bem real, da influência de Chávez e do socialismo "bolivariano".
 
         Todos sabem que Bolívar poderia ser tudo, menos socialista. Foi libertador de republiquetas inimigas e morreu frustrado por não haver conseguido constituir a "Grã-Colômbia", uma confederação de países a noroeste da sulamérica que faria constraste ao poderio nascente do Brasil. Nem de longe pôde ser comparado à grandeza de Dom Pedro I, vulto histórico que acumulou duas coroas (a brasileira e a portuguesa), tendo a visão holística de manter unido o império brasileiro, ameaçado de se fracionar, caso fosse contaminado pelos ideais de Bolívar e outros "heróis" da América espanhola.
 
         Nosso país, por conseguinte, hoje funciona, na visão de Obama, como "algodão entre cristais" entre os Estados Unidos e a Venezuela. Percebendo a manobra, Hugo Chávez não passou recibo, porque caminha na corda bamba diante do leão do Norte: qualquer descuido poderá deixar de exportar para solo norte-americano mais de 1/3 de sua produção de petróleo, o que resultará em enormes danos à eterna fome de poder e expansionismo, além de tornar mais difícil a exibição de sua fanfarronice diante dos já perplexos cidadãos venezuelanos.
 
         Lula, por sua vez, representa uma espécie de poder moderador completamente domesticado e fácil de levar, desde que seja sempre elogiado e tolerado na roda dos maiorais. Posto isso, como axioma, os dirigentes do G-7, expandidos por concessão ao G-20, perceberam como melhor tratá-lo, dando-lhe sempre aquilo de que mais precisa: um lugar na Terra, abaixo apenas de Deus, mas sem qualquer importância ou concessão real!
 
         "Lula é o cara, aí, ê, ô…" – comentam em suas gírias características os dirigentes dos países ricos, rindo-se pelas costas de suas ridículas metáforas, que vêm causando imensa vergonha ao povo brasileiro. Embora concordem que o Brasil não é para principiantes, não conseguem entender como o povo deste país conseguiu eleger alguém tão primário e pueril, cujas origens não conseguem disfarçar o deslumbramento diante das luzes da ribalta mundial…
 
         Na foto comemorativa do encontro internacional, sentado ao lado esquerdo da Rainha, como pede o protocolo, já que é o dirigente de mandato mais antigo, estava sorridente e encantado por agradar a City britânica, empenhada como nunca em agradecer a recente "entrega" da Reserva Raposa do Sol.
 
         Obama, ao fundo, sorria às escâncaras, sem precisar sair do plano de fundo para demonstrar poder, que é real, sem lugar privilegiado na fotografia, deixando o simulacro, domesticado e agradecido, sobressair, na crença vaidosa de que jamais poderia ter chegado tão longe!
 
         Obama entendeu, espertamente, que nosso presidente, coitado, é um personagem que finge ser o que não é quase todo o tempo, demonstrando explicitamente o prazer do deslumbramento, dos que sabem lá no fundo que não deveriam mesmo estar ali. É o Zé Carioca, que resolveu ser chique e se modernizar, virando, finalmente, um  poodle bonzinho e sorridente! Pobre Brasil!
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*Waldo Luís Viana é escritor, economista e poeta e gosta muito de animais de estimação!

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