Fora do eixo

CBN

O blog de poesia de Maria Bethânia protagonizou as polêmicas da última semana. Aprovado pelo Minc, o projeto está apto a captar R$ 1,3 milhão através das leis de incentivo. Entre desaforos cibernéticos, gritaria nos jornais e entrevistas enfadadas, é interessante não se desviar do ponto sensível da proposta. O modelo nacional de incentivo cultural, baseado em renúncias fiscais, a acefalia do ministério em termos de políticas públicas. O substrato dessas questões, mais do que com argumentos, vale ser demonstrado em números. Em 2009, captou-se, via renúncia fiscal, um bilhão de reais no país. Mais da metade deste valor foi para produções de 3% dos agentes culturais que inscreveram projetos nas leis. Mais da metade deste valor foi destinado a projetos realizados no eixo Rio-SP.

 

Fora do eixo II

Diante desse cenário, não sem surpresa recebo uma caixa com títulos da editora Casarão do Verbo, sediada em Anajé, na Bahia. Criada pelos irmãos Renata e Rosel Soares, a empresa é um caso raro de iniciativas que passam ao largo da grande imprensa e que podem ter um impacto fundamental na alteração da realidade local – no caso, o sudoeste baiano – além de atacar de frente a marginalização da produção cultural que não faz parte do conhecido roteiro de jornais, revistas e parte da academia.

 

Fora do eixo III

Segundo Rosel, a empresa, criada em 2008, nasceu como uma resposta aos aterradores dados educacionais da região. Anajé está na rabeira do IDH (índice de desenvolvimento humano) entre os municípios baianos. Desse modo, muito além de simplesmente selecionar e editar obras, a editora tem como objetivo participar localmente como um importante ator social. Quer na difusão da leitura e na redução do alfabetismo, quer na ampliação das políticas educacionais e na aproximação da população local com o universo livreiro.

 

Fora do eixo IV

Quanto ao catálogo, a editora aposta em títulos infantis – algo fundamental no projeto de formação de leitores, pólo de atração para o mundo dos livros – além de ficção e ensaios nacionais. A escolha chama a atenção. Não bastasse empreender num mercado complexo, o fato de os editores estabelecerem como vocação editorial a publicação de obras que pensem o país, a partir de exemplos locais. Dando voz a uma rede plural de autores, gêneros e temas. É algo cada vez mais raro no nosso mercado editorial.

 

Fora do eixo V

Apresentados em edições apuradas, os títulos vão desde o romance “Inúteis Luas Obscenas”, de Hélio Pólvora – duas vezes vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura. A “Escrevinhações de Samuel, o eterno”, do ator Antonio Calloni. E, em 2011, a Casarão ainda promete lançar seu primeiro título em quadrinhos: as histórias de Nicolau & Ricardo, dois detetives com DNA baiano – que já se anuncia como um achado. O site da editora está em construção, mas os interessados podem encomendar os títulos através das grandes livrarias do país, a partir de suas lojas e sites.

 

José Godoy
José Godoy é escritor e editor. Mestre em teoria literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), colabora com diversos veículos, como a revista “Legado”, da qual é colunista, e os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. Desde 2006, apresenta o programa “Fim de Expediente”, junto com Dan Stulbach e Luiz Gustavo Medina. O blog do programa está no portal G1.

 

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