VELHOS COMUNISTAS NÃO GOSTAM DE QUE POVO CONSTRUA A LÍNGUA

Janer Cristaldo

Em dezembro de 2007, foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados um projeto de lei proposto pelo deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que buscava promover, defender e proteger a língua portuguesa.

Segundo o deputado bolchevique, as muitas expressões estrangeiras utilizadas no Brasil dificultam, muitas vezes, a comunicação dos brasileiros. Segundo o projeto proposto, toda a vez em que for usada uma palavra estrangeira para uma comunicação ao público, o emissor da mensagem deve disponibilizar a tradução em português. Tal regra seria válida para os meios de comunicação de massa, informações em estabelecimentos comerciais e também para a publicidade.

Na verdade, o projeto tinha um alvo definido, o uso das palavras e expressões em inglês. Depois da queda do muro, o comunismo se reduziu a um anti-americanismo histérico. O deputado evidentemente nada tinha contra palavras como ombudsman, chef, premiê, Tour de France e similares de outras línguas que não o inglês. Sua preocupação era com hard, light, diet, drink, sale, print, overnight, mouse, software. Consta que certa vez foi flagrado falando em outdoor. Enrubesceu e corrigiu: grande cartaz. Acontece que outdoor não é exatamente grande cartaz.

Que foi feito do projeto do antigo comunossauro, não sei. O fato é que continuamos tomando drinks, consumindo softwares e produtos lights ou diets, printando e usando o mouse. Quem faz a língua é o povo e não o Congresso lá em Brasília. Pelo projeto de Rebelo, aquele bate-estaca ianque que hoje chamamos rock passaria a chamar-se pedra – ou rocha. Os Rolling Stones seriam os Pedras Rolando. E o mouse passaria a ser rato. Verdade que no espanhol é ratón, mas espanhóis não incidem nesse ridículo de proibir palavras estrangeiras na Espanha. Quem prefere mouse, que o prefira.

Coisa de rato que ruge. Imagine um deputado nos Estados Unidos querendo proibir o espanhol nos meios de comunicação de massa, informações em estabelecimentos comerciais e publicidade. Seria ridicularizado. Aqui, merece a atenção da Câmara dos Deputados. Comunistas são em geral monoglotas e não gostam de estrangeirismos. Foi Luíza Erundina, se bem me lembro, que propôs a tradução dos cardápios em São Paulo. Para começar, de modo geral estão traduzidos. Têm cá e lá uma expressão francesa ou italiana, que designa as características do prato. Mas essas expressões nem sempre admitem tradução.

Uma língua é feita de outras línguas. Não existe língua pura. O vernáculo vai integrando no correr dos anos as palavras que absorve. Por exemplo mina (no sentido de mulher), tira (no sentido de policial) ou pivete. Hoje soam como português, não é verdade? Mas provêm do lunfardo portenho. Garagem, bagagem, montagem provêm do francês. O português está totalmente impregnado pelo grego. Se alguém pensa que táxi, telefone ou nosocômio são palavras nossas, está totalmente enganado. É grego puro. Para se proibir estrangeirismos no vernáculo, seria necessário extirpar palavras que há séculos fazem parte da língua.

Estupidez contagia. Dois anos depois, o vírus da ignorância pegou carona nalgum vento norte e veio aterrisar em Porto Alegre. Um projeto que exige tradução de palavras estrangeiras deve ser votado nesta semana na Assembléia gaúcha. Proposto em 2009 pelo deputado Raul Carrion – não por acaso outro velho bolchevique – e aprovado pela CCJ na última terça-feira, a proposta obriga a tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, sempre que houver no idioma uma palavra ou expressão equivalente.

O parlamentar argumenta que o projeto não pretente proibir o uso de expressões estrangeiras, mas apenas exigir a sua tradução, para que um maior número de pessoas compreenda o que está sendo veiculado. Ele citou o caso de palavras que provocam confusão nos consumidores como “light” e “diet”, que muitas vezes são entendidas como sinônimas, mas que, no entanto, possuem significados distintos. A antiga bronca com o inglês.

Se o projeto de Aldo Rebelo é de uma estupidez profunda, o de Raul Carrion é de uma estupidez hiante. Pois propõe regulamentar o uso da língua de um país em um só Estado. Tal lei, ainda que estúpida, só poderia ser proposta em âmbito nacional. Como a estupidez de Rebelo não vingou, caso vingue a de Carrion teríamos no Rio
Grande do Sul uma língua diferente do resto do país.

Ora, diferenças regionais já existem. Mas ninguém hoje no Brasil deixa de usar palavras estrangeiras. Se são majoritariamente inglesas, é porque a cultura ianque é dominante. Mas isto transcende a língua. Continuará sendo dominante enquanto os Estados Unidos forem potência. A cultura segue a espada. Ou alguém pretende traduzir os milhares de palavras que a informática joga por ano no mercado?

Pela lógica do projeto de Carrion, jornais do centro do país, para entrar no Rio Grande do Sul, teriam de ter seus estrangeirismos traduzidos. Livros, idem. E vamos terminar com essa história de bullying. Televisão que falar em bullying de alguma forma terá de ser interditada ou punida. Os cetegistas já fecharam as fronteiras culturais com o Plata. Carrion quer fechar a fronteira lingüística com o Brasil.

No país todo, a língua será falada como o povo a constrói. No Rio Grande do Sul, como o velho bolchevique quer.

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