Bichas, pobres e judeus

FolhaOnline

 – Intolerância, ignorância, exageros, ofensas, baixarias e falta de discernimento campearam esta semana no país da cordialidade. Do jeito que o diabo gosta…

Nada como alguma boa polêmica para esta gente bronzeada mostrar seu valor, não é mesmo?

E os valores são: intransigência, fanatismo, ódio e incapacidade de aceitar o outro.

Sobretudo quando o outro é diferente…

Ainda mais quando a orientação sexual do outro é diferente. A aprovação da união estável para homossexuais demonstrou por A + B o que todo mundo já sabe, que o Brasil é macho pra caramba da boca pra fora e que quer mais é dar porrada em boiola e em quem é a favor de frescura.

Sim, neste nível… Senti na pele na coluna da semana passada, ao transcrever um diálogo com um taxista, em que deixava transparecer minha óbvia e determinada simpatia à causa gay. Ah, pra quê… Basta o dileto leitor dar uma olhada nos comentários sob a coluna em questão, clicando aqui em baixo. As dezenas de vezes que você encontrar a informação “O seu texto infringe os termos de uso do serviço e por isso foi removido” significa que o serviço de mediação da Folha.com teve de entrar em ação para extirpar ofensa e baixaria contra mim e/ou contra outros democratas que ali haviam se manifestado. Eu cheguei a ver vários comentários, uma lindeza de mentes esclarecidas, daquelas que enchem a boca para chamar alguém de bicha, sabe?

Bem, mas a semana foi em frente e o que se viu foi mais intolerância, desta vez no episódio da estação do metrô em Higienópolis.
Reportagem da Folha dava conta da insatisfação de moradores do bairro com o futura e eventual aumento da presença por ali de uma certa (olha a intolerância aí..) “gente diferenciada”, expressão utilizada para designar pobre que utiliza metrô. Veja bem, a expressão foi atribuída a uma única mulher, aliás não identificada pela reportagem, que informava ainda ter a Companhia do Metrô ter desistido da tal estação.

Foi o que bastou para o circo pegar fogo e a internet e as rede sociais cumprirem seu papel de gasolina na fogueira.
“Contra” os que não gostam de pobres, começaram a gritar os que não gostam de ricos. E logo logo, aproveitando que o bicho estava pegando na internet com todo mundo dando porrada nos 3.500 moradores do bairro que se mobilizaram contra o metrô, surgiram os que não gostam de judeus.

E lá veio a baixaria novamente.

O que começou como uma brincadeira contra o elitismo acabou degringolando para o racismo deslavado, intimidações e ofensas aos moradores do bairro, tradicional reduto da comunidade judaica na cidade.

Como se todos os moradores de Higienópolis fossem judeus, como se todos fossem contra o metrô, portanto como se todos fossem judeus, ricos, não gostassem de pobres e nem quisessem o metrô…

Opa, devagar com o andor…

Bom descendente católico de italianos, eu moro em Higienópolis. Eu e mais 40/50 mil pessoas, ou seja, o equivalente a um estádio do Pacaembu lotado de raças, cores e credos.
Eu, e quero acreditar que a maioria dessas pessoas, sou a favor não apenas de uma, mas de várias estações do metrô. E se essas pessoas não forem, eu faço questão de ser também a favor dos judeus ofendidos esta semana, assim como sou totalmente a favor daqueles que são contra o metrô; ou seja, a favor do direito deles serem contra.

É assim que se constrói uma democracia, não? Respeitando-se opiniões contrárias e diferenças, debatendo-se?

Não foi em nome dessa liberdade que a gente brigou duas décadas contra uma ditadura militar que não permitia dissidências?

Em princípio eu até gostei da brincadeira do tal “Churrascão de Gente Diferenciada”, que tirava uma com os elitistas (sim, eles existem e devem ser combatidos no campos das ideias). Brincadeira em nome daquela população do bairro que ninguém vê ou ninguém quer ver: empregada, faxineira, lavadeira, porteiro, encanador, eletricista, manicure, pintor, balconista e todos os demais “diferenciados” que preferencialmente usariam o metrô, ajudando o bairro a funcionar.

Mas misturar isso com a origem de boa parte das pessoas que vivem por aqui para generalizar e ofender, não vem não!
Sou contra.

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