A Albertinho

Selma Barcellos

– foto de Wayne Miller –

– Primeiro (e único) ano de trabalho em escola pública, recém-formada, cheia de pedagogia pra dar, o desafio: Albertinho, franzino, mas marrento, agitadíssimo, terror das professorinhas em flor, estava na turma.

Bela manhã, escrevia no quadro, alguém gritou:

_ Tiaaaa, olha Albertinho!

Já que a frase era rotina, esperei acabar o parágrafo para me virar. Não me perguntem como, mas Albertinho havia escalado o armário do fundo da sala. Decidiu que iria assistir às aulas encarapitado lá em cima. Ainda balançava as perninhas.

Para não causar tumulto nem risco de queda, fui calmamente até ele:

_ Desce daí, querido. Você pode se machucar…

_ NÃÃÃÃÃO! Esse cara aí solta cadas pum que eu não supurta mais!

Sem saber se ria ou se chorava, convenci nosso herói a descer, dei um upa apertado nele, troquei-o de carteira, notifiquei a mamãe do pimpolho flatulento sobre seu probleminha digestivo e, claro, retive o “real infrator” para uma conversa após o sinal.

Há alguns dias, porém, bateu um arrependimento… Cadê você, Albertinho? Foi mal ter corrigido aquele “cadas”, aquele “supurta”… Por puro preconceito linguístico, maculei seu falar coloquial, adequado… Estraguei tudo com tantas normas cultas e soníferas gramatiquices, né?

Ou não, Albertinho? Quem sabe você não se deixou importunar pelas exigências descabidas da nossa língua e hoje é figurão no Planalto, autor de livros do MEC…

De qualquer forma, sucesso, filho. Muitos peixe aí nas suas rede.

Com carinho,

A professorinha

Do Blog de Selma Barcellos

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