USP, FREDRIC JAMESON E INDIGÊNCIA INTELECTUAL

Janer Cristaldo

Em crônica recente, eu afirmava que cursos como os de Letras, Filosofia e Sociologia são perfeitamente inúteis. Recebi não poucos protestos, entre eles esta pérola: “Pelo que eu entendi o senhor tem certeza que bastão livros para termos pós-graduados como o senhor, e assim sendo ao invés de aumentarmos as vagas nas universidades como propõe o REUNI, devemos fazer apenas mais bibliotecas”.

Tem razão, meu caro. Livros não “bastão”. Livros bastam. É espantosa a nonchalance com que certos leitores, que não conseguem flexionar um verbo, se sentem autorizados a discutir ensino universitário. Eu fiz Filosofia e fui professor de Letras, na graduação e pós-graduação, sem jamais ter feito curso universitário de Letras. Fiz doutorado, direto. É portanto com conhecimento de causa que afirmo o que afirmo.

Do Rodrigo, estudante de Filosofia na USP, a propósito da crônica de ontem, recebo:

Janer,

Não sei se tem ciência disto, mas na USP Jameson é ensinado como paradigma da crítica estética moderna e “pos-moderna”. Estou no último ano do curso de filosofia e, para me formar, sou obrigado a ler as asneiras deste senhor em disciplina obrigatória. Salvo honrosas exceções, a área de Estética e Filosofia da Arte é coalhada de adeptos da Escola de Frankfurt. É muito difícil encontrar discussões sobre gigantes como Octavio Paz e Ortega y Gasset. Aquele até recebe alguma atenção, mas este é simplesmente ignorado. Outro dia fui conversar com um professor a respeito de Ortega, e assim ele interrompeu minha fala: “Você está falando sobre aquele pensador católico?”. Percebi na hora que a conversa não vingaria, e cortei o assunto. Eis o ambiente de miséria intelectual. Felizmente, há, sim, docentes que se salvam nesta universidade picareta.

Bom, Rodrigo, estou afastado há anos da universidade, onde perdi meu tempo, e hoje não sei quais são os teóricos da moda. Em meus dias, eram Althusser, Lacan, Kristeva, o indefectível Gramsci, mais alguns alemães cujo nome já não lembro. Na época, não era de bom tom citar americanos.

Desconheço algo mais precário, no mundo acadêmico, que o tal de método. Método significa o seguinte: você usa o pensamento de um teórico qualquer, de preferência alemão ou francês – paraguaio ou boliviano não vale, é claro! – para embasar suas reflexões. (Claro que nenhum PhDeus que se preze vai aceitar um espanhol ou um hispânico). Ou seja: você não pode pensar. Quem pensa é o teórico. Que isso tenha importância na área científica, entendo. Só não sei quem importou o tal de método para a área das ditas ciências humanas. Método é um freio ao livre pensar. Você quer um galão que o habilite ao ensino universitário? Então renuncie a seu próprio pensamento e pense como nós, da Academia, pensamos. Você não está aqui para ser original. Pense como pensamos todos.

Escreveu Lígia Chiappini Moraes Leite – por sinal minha conterrânea e hoje professora na Freie Universität de Berlim – em A Invasão da Catedral: “É por isso que os seminários da pós-graduação continuam a ser, na sua maior parte, aulas ou conferências dadas pelo professor ou por um aluno, e as teses, exercícios escolares sem grandes audácias, onde a invenção é mal vista e a submissão aos métodos do orientador, predominante. O que interessa não é entrar na aventura da pesquisa, mas seguir a trilha bem comportada e segura que levará aos títulos”.

Conversando com a Lígia, disse-me ela um dia: “Não existe legislação alguma que obrigue um doutorando a utilizar teorias em sua pesquisa”. Ora, numa instituição esclerosada como a universidade, isto soa como heresia. Na Idade Média, seria fogueira na hora.

Pelo que me escreves, Rodrigo, já estão impondo teoria na graduação. Em meus dias de magistério, uma aluna veio perguntar-me:
– Professor, que método devo usar?
– Nenhum, minha querida. Comigo não há métodos. Pensa com tua cabeça.

Ela ficou perplexa, nunca tinha ouvido algo igual. Acho que também se sentiu no mato sem cachorro. Método é uma grade. Como ela não sabia o que pensar da literatura que analisava, aplicar uma grade teórica a um texto era sua salvação. É deste tipo de aluno que os PhDeuses gostam. Aqueles que não têm idéias próprias. O que me lembra uma colega de doutorado em Paris. “Não quero pensar” – me disse. “Vou usar o método estruturalista” .

Esse Jameson é um velho comunista americano, que fez carreira como crítico literário e de artes. Não entendo como possa ser tema de disciplina obrigatória em um curso de Filosofia. Comunista em pleno século XXI, duas décadas após a queda do Muro e da desmoralização definitiva do comunismo, deveria estar internado em um leprosário em vez de ser convidado para palestras no Brasil. Este é o mal dos cursos de Letras e Filosofia. Em vez de estudar a obra de escritores e filósofos, você perde seu tempo lendo teóricos que nada têm a vez com o peixe.

Você quer estudar filosofia? Pegue uma boa história da filosofia, escolha os filósofos que mais o marcam e vá em frente. Terá de começar pelos gregos, é claro. Pode até dar uma olhadela naqueles teólogos que se pretendiam filósofos, tipo Agostinho e Tomás de Aquino. Sempre é bom para ter uma idéia do obscurantismo. Mas pode deixar de lado, sem perder nada, pensadores confusos como Husserl, Heidegger ou Sartre. Quanto a Jameson, é tempo roubado que você poderia dedicar a boas leituras.

Em janeiro de 2000, em um excelente estudo intitulado “As Raízes do Marxismo Universitário”, José Arthur Reis escrevia:

“Na Europa, nos arraiais das ciências da sociedade, muito antes da queda do Muro e do desmoronamento do regime soviético e dos seus satélites, o marxismo era visto como doutrina sectária e ultrapassada. Com exceção da França, não desfrutava do prestígio intelectual dos anos 40 e 50. Nada parecia alterar, nestes trópicos, a tranqüilidade dos meios acadêmicos, cada vez mais dominados pela esquerda, criando o paradoxo de um ensino superior eivado de marxismo sob um regime militar em choque contra a guerrilha armada, o terrorismo e a subversão”.

Mais de meio século depois de a Europa ter abandonado uma doutrina do século XIX, a universidade brasileira ainda busca apoio teórico no marxismo. A USP, que deveria constituir a vanguarda de qualquer pensamento no Brasil, demonstra indigência intelectual ao apegar-se ao que de pior o século XX alimentou.

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