Neguinho da Beija-Flor tem mais gene europeu que africano

 BBC 

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RIO – Neguinho da Beija-Flor, o sambista carioca que leva a cor da pele no nome artístico, é geneticamente mais europeu do que africano, indica uma análise do seu DNA feita a pedido da BBC Brasil como parte do projeto Raízes Afro-brasileiras.

De acordo com essa análise, 67,1% dos genes de Luiz Antônio Feliciano Marcondes, o Neguinho, têm origem na Europa e apenas 31,5%, na África.

“Europeu, eu?! Um negão desse”, disse, apontando para si mesmo e num tom entre divertido e desconfiado, ao ouvir o resultado do exame da amostra de saliva que enviou ao Laboratório Gene, do genetista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Antes de conhecer a conclusão surpreendente do teste, o sambista apostara que devia ser de 70% a 90% africano e que não teria um só gene europeu. “Não tenho olho azul, não tenho cabelo escorrido, não tenho nada de branco aqui. Da Europa, nada”, havia dito, brincando.

O geneticista Sérgio Pena explica a aparente contradição: “Os genes que determinam a cor da pele são uma parte ínfima do conjunto de genes de uma pessoa”.

Para o especialista, o resultado do exame de Neguinho é apenas a comprovação de que a cor da pele é, do ponto de vista genético, o equivalente à pintura de um carro. “É como a diferença entre um Fiat amarelo e um Fiat vermelho. Por dentro, são iguais”, comparou.

Para chegar aos percentuais em questão, a equipe de geneticistas liderada por Pena analisou 40 regiões do genoma de Neguinho.

As seqüências genéticas (haplótipos) encontradas no sambista foram então comparadas com as registradas em bancos de dados internacionais e do próprio laboratório.

Segundo Pena, o resultado de Neguinho não é raro e reflete, simplesmente, a intensa miscigenação que houve e ainda há no Brasil entre índios, europeus e africanos. O próprio Neguinho tem, por exemplo, 1,4% de ancestralidade ameríndia.

O geneticista compara a análise do DNA genômico às pesquisas de intenção de voto, e destaca que o processo está sujeito a uma margem de erro que vai de 5% a 10%.

Ancestrais africanos

Além da análise do DNA genômico, uma amostra de saliva de Neguinho da Beija-Flor foi submetida a outros dois testes que revelaram de onde vieram os seus ancestrais.

O ancestral paterno mais distante é revelado por meio da análise do cromossomo Y, passado de pai para filho (e não para filha) sem sofrer mudanças, a não ser que haja uma mutação.

A ancestral materna mais distante é revelada por meio da análise do DNA mitocondrial que é passado da mãe para filhos e filhas, também sem sofrer mudanças.

Na análise da linhagem materna, seqüências genéticas idênticas às de Neguinho foram vistas em três populações da África Ocidental: os mancanha (Guiné Bissau), o povo limba (Serra Leoa) e os iorubás (distribuídos por uma região que engloba hoje países como Nigéria, Benin, Gana e Togo).

Do lado paterno, é mais difícil precisar a origem porque o material genético analisado tem, segundo Pena, ampla distribuição geográfica entre as três regiões da África que enviaram escravos ao Brasil – África Ocidental, África Central e Sudeste da África.

A genética novamente explica como um exame pode indicar a predominância européia de Neguinho e ao mesmo tempo “o lado europeu” não aparecer no exame das ancestralidades materna e paterna.

“São bananas e maçãs”, diz Pena, enfatizando que as informações não se contradizem.

É que o DNA mitocondrial, usado para rastrear a ascendência por parte de mãe, remete a apenas uma ancestral materna que viveu na África não se sabe quando. Pode ter vivido há centenas ou milhares de anos atrás. Dessa forma, esse teste não reflete as sucessivas misturas que ocorreram depois dessa ancestral.

A mesma coisa acontece com o cromossomo Y, usado para rastrear a ancestralidade paterna. Esse cromossomo, explica Pena, é passado como um “sobrenome”, de pai para filho sem alterações. Por isso, a sua análise revela um ancestral que deu origem a esse sobrenome, mas não aos que vieram depois dele.

Tanto o DNA mitocondrial como o cromossomo Y são “marcadores de linhagem”

que não necessariamente têm expressão genética, mas ficam “gravados” no DNA do indivíduo.

Para Neguinho, os resultados foram surpreendentes, mas não vão mudar a forma como ele se vê.

“Eu vou pela cor da pele. Se eu disser que sou 67% europeu, nego vai achar que estou de gozação”, disse o músico carioca, pai de dois filhos.

O geneticista Sérgio Pena explica, no entanto, que os testes de ancestralidades materna e paterna revelam apenas o ancestral mais antigo de cada lado.

Daí a importância de se fazer o teste de ancestralidade genômica que tira uma “média” do DNA e estima as porcentagens de ancestralidade africana, européia e ameríndia.

Sérgio Pena calcula em 2,5% a margem de erro dos testes de ancestralidade genômica.

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