Ciência do mal

( Sérgio Augusto – O Estado de S.Paulo)

 – Para testar a eficácia preventiva da recém-lançada penicilina, os Estados Unidos infectaram 1.300 guatemaltecos na década de 40.

 A história não é nova, dela já se sabia desde outubro do ano passado, mas aos olhos, aos ouvidos, e sobretudo ao estômago da multidão só chegou na segunda-feira, quando uma comissão especial de bioeticistas nomeada pelo presidente Barack Obama confirmou e deu detalhes sobre um estarrecedor experimento médico-científico na Guatemala, secretamente patrocinado por uma agência do Departamento de Saúde dos EUA, na segunda metade da década de 1940.

Entre 1946 e 1948, cerca de 1.300 guatemaltecos foram infectados com doenças venéreas para testar a eficácia da recém-lançada penicilina na prevenção de moléstias sexualmente transmissíveis. Inocularam gonorreia e sífilis através do globo ocular e da base do crânio de prostitutas e as estimularam ao coito com detentos, doentes mentais e soldados. Órfãos também foram usados nos testes, assim como mulheres epiléticas e sifilíticas. Apenas 700 dos infectados receberam algum tratamento e 83 morreram.

Não foi apenas complotando para derrubar presidentes democraticamente eleitos e sustentando ditadores militares que os EUA infernizaram a Guatemala no século passado. Por acaso era um democrata, Juan José Arévalo, quem governava a Guatemala no período em que o dr. John Charles Cutler e seus pupilos lá implantaram um laboratório digno do Doutor Moreau de H.G. Wells, mas é provável que Arévalo tenha sido engambelado pelas autoridades locais comprometidas com as pesquisas. O atual (e também legítimo) presidente guatemalteco, Álvaro Colom, só foi tomar conhecimento delas ao receber um pedido formal de desculpas da Casa Branca.

Para quem não leu o romance de Wells, The Island of Doctor Moreau, publicado em 1896, nem viu qualquer de suas três versões para o cinema, um parêntese: Moreau era um vivisseccionista vitoriano que em sua ilha fazia as mais bizarras e cruéis experiências com animais e seres humanos. Sempre “em prol da ciência”, como soem alegar os cientistas loucos da ficção e do mundo real, do dr. Frankenstein ao dr. Josef Mengele.

Mengele, o monstro nazista, coordenou os mais horripilantes experimentos genéticos e de resistência física no campo de concentração de Auschwitz, que o tornaram a maior referência da depravação científica de todos os tempos. O sanitarista John Cutler não ganhou o apelido de “dr. Mengele americano” numa rifa. Quando morreu, em 2003, obituaristas que ignoravam suas sigilosas atividades na Guatemala o cumularam de elogios, trataram-no como um heroico pioneiro na luta contra doenças sexualmente transmissíveis, como um benfeitor da humanidade. Quase um ano atrás, a historiadora Susan Reverby, da Universidade de Wellesley, desautorizou a canonização. Ao pesquisar o papelório do doutor, chegou aos arcanos da biopilantragem na Guatemala e a expôs à execração pública.

Descobriu-se também que Cutler fizera pesquisas similares com detentos de uma penitenciária de Indiana, em 1943, e envolvera-se, nos anos 60, no escandaloso caso Tuskegee. Implantado em 1932 com o objetivo de observar as reações de centenas de negros sifilíticos de Tuskegee (Alabama) a determinados fármacos, esse projeto foi levado adiante durante 40 anos e deixou um saldo de 70 mortos. O YouTube tem imagens do caso, tema de um documentário, The Deadly Deception, produzido em 1993.

http://www.youtube.com/watch?v=ofiOzzfKK84

No ranking das atrocidades cometidas em nome da ciência e da saúde, no século passado, o dr. Cutler não faz, portanto, má figura. A medalha de ouro ainda pertence, consensualmente, ao doktor Mengele. Mas é grande a concorrência. Em todos os quadrantes.

Cientistas norte-coreanos se especializaram no estudo das reações terminais de cobaias humanas à ingestão de repolhos envenenados e a sufocamento por gás. O sofrimento das vítimas, que culminava com uns 20 minutos de vômitos convulsivos e sanguinolentos, era estoicamente monitorado através de um espelho. E, já que estamos na Ásia, não custa lembrar a figura do microbiólogo Shiro Ishii, que na segunda guerra sino-japonesa (1937-1945) montou para o Exército Imperial do Japão uma unidade de pesquisas químicas e biológicas ainda mais cruéis que as do dr. Cutler na Guatemala.

Quinze minutos era o tempo médio da agonia final dos prisioneiros dos gulags soviéticos submetidos aos testes de envenenamento pelo gás C-2, controlados pelo bioquímico Grigori Mairanovski e supervisionados pelo superespião stalinista Pavel Sudoplatov. Objetivo da pesquisa: descobrir um veneno letal que não pudesse ser detectado post mortem.

Abortos, partos prematuros, defeitos físicos em crianças e câncer tireoidiano foram as consequências mais comuns dos testes nucleares no Atol de Bikini, em março de 1954, nos habitantes das Ilhas Marshall, premeditadamente expostos aos seus efeitos radioativos como parte do Projeto 4.1.

Entre 1971 e 1989, quase mil lésbicas e soldados homossexuais sul-africanos foram forçados a uma guinada sexual, sob o comando do dr. Aubrey Levin, o Mengele do apartheid. Os que não eram “curados” com drogas, doutrinação psiquiátrica e eletrochoques eram submetidos a tratamento hormonal ou a castração química. Levin, também conhecido como Dr. Shock, mandou-se para o Canadá e hoje dá aula no Departamento de Psiquiatria da Universidade de Calgary.

Quem nunca ouviu falar no Projeto MK-Ultra? Era o codinome de um programa de controle da mente da CIA, implantado no auge da Guerra Fria. As cobaias (candidatos a espião, soldados, médicos, prostitutas, doentes mentais, etc.) eram dopadas, sem o saber, com LSD e drogas correlatas e seus cérebros manipulados por um seleto grupo de cientistas, ao estilo The Manchurian Candidate, numa clara violação do Código de Nuremberg, firmado no fim da guerra para evitar a mengelização da ciência. Em 1972, o então diretor da CIA, Richard Helms, mandou destruir os arquivos do projeto, impossibilitando sua investigação.

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