Bloom e a leitura

(Janer Cristaldo)

 – Afirmo seguidamente que fora da leitura não há salvação. Em meus dias de universidade, uma aluna me perguntava. Professor, é verdade que a leitura pode transformar a gente? É a única coisa que transforma sem machucar – respondi. Mas há leituras e leituras. Uma coisa é ler Harry Potter e outra é ler Crime e Castigo. Conheço inclusive leitores contumazes – e os conheço de perto – que lêem talvez até mais do que eu leio, mas não fazem distinção alguma entre Rowling e Dostoievski. Crime e Castigo? Ah, sim a história daquele estudante que matou uma velhota? E estamos conversados. Como se fosse entrecho da novela das oito. As reflexões do russo sobre a vida e a morte, sobre o homem, Deus e a sociedade, escorrem como água entre os dedos. Ou seja, ler nem sempre é sinônimo de aquisição de cultura. Ainda há pouco, eu falava de minha ojeriza aos best-sellers. Se um livro vendeu de repente um milhão de exemplares, este é um de meus critérios para não comprá-lo. Não existe tanta gente inteligente no mundo. Não existe um único best-seller em minha biblioteca. Aliás, quando saio atrás de um título, tenho de trotar entre uma livraria e outra, pois trata-se de livro geralmente pouco divulgado. Foi o que aconteceu, há alguns anos, quando saí à procura de um ensaio de Harold Bloom. Passei numa livraria do bairro e pedi: – Vocês têm Jesus e Javé, do Bloom? A moça foi consultar o computador e digitou: Jesus e Djavan. – Nada disso, respondi. Quero Jesus e Javé. Não tinha. Fui em outra livraria e pedi de novo. O atendente foi ao computador e digitou: Jesus e jovens. Nada disso, moço. Bom, fui na terceira livraria. A moça repetiu: Jesus e Jeová? Quase, moça. Mas ainda não é bem isso. Mas também não tinha. Tive de encomendar o livro da editora. Harold Bloom é um dos mais eruditos críticos literários contemporâneos. Sua análise dos textos bíblicos irrita os crentes, pois ele vê a Bíblia como obra literária e não como livro sagrado. É obra que gostei de ler. O mesmo não diria de O Cânone Ocidental, onde o autor pretende estabelecer uma rigorosa seleção da literatura ocidental. Bloom inclui no cânone um medíocre como Pablo Neruda e um escritor menor como Machado de Assis e deixa de lado um poeta imenso como José Hernández. Trecheei este ensaio numa livraria. Quando vi que não mencionava Hernández, deixei-o de lado. Havia algo errado em sua seleção. Só descobri mais tarde, quando Bloom admitiu que seu cânone dependeu de encomenda de editoras. Depreendo que se não pusesse Machado no cânone, talvez não fosse publicado no Brasil. Confesso que caiu bastante em meu conceito. Mas isto pouco importa. Este aceno ao mercado não retira o valor de suas obras anteriores, que demonstram uma erudição colossal, só encontradiça em leitores vorazes. E cânones são relativos. Bloom continua sendo talvez o crítico literário mais importante de nossa época. O que importa é sua entrevista publicada hoje no El País, onde Bloom, octogenário e combalido pela doença, se mostra extremamente jovem do ponto de vista intelectual. E fala de sua última obra, que considera ser seu legado final à literatura. – A Anatomia da Influência é minha summa literária, meu legado como crítico. O testemunho final de uma vida dedicada aos livros. Para mim, ler é a única maneira de dar sentido à vida. No livro, estendo uma ponte aos milhões de leitores autênticos de todo o mundo, leitores anônimos que contra ventos e marés, apesar de os tempos serem terríveis para a verdadeira literatura, se negam a renunciar a ela. – Hoje em dia se produziu um abandono de toda exigência estética e cognitiva, que são os sinais de identidade da grande literatura. A literatura imaginativa, tal como a cultivavam Shakespeare, Cervantes, Dante e Montaigne, cedeu lugar ao lixo abominável dos best-sellers como os que acaba de citar (Bloom se refere a J. K. Rowling, a autora de Harry Potter, e Stephen King) e quaisquer que sejam seus equivalentes na Espanha e resto do mundo. Que se pode fazer ante uma situação assim? Levo anos lutando contra isso, mas sei que é uma batalha perdida. Perdida, não diria. Mas a boa literatura está sendo vencida pelos best-sellers de 10 a 0. O livro bom, quando consegue encontrar lugar no mercado editorial, some das estantes das livrarias. Semana passada, sai à cata de Por Mares Nunca Dantes Navegados, de Ronald J. Watkins, que narra a saga de Vasco da Gama na abertura de um caminho para o Oriente. Encontrei, mas foi um parto encontrá-lo. Mas Harry Potter está em todas as livrarias. Stephen King também. Ao final da entrevista, o arguto Bloom incorre em um truísmo: – Não posso pôr um ponto final a este livro, porque tenho a intenção de seguir lendo enquanto me restar um sopro de vida. Ora, leitor que se preze jamais deixa de ler. Sem falar que é um dos poucos prazeres que a velhice concede.

http://cristaldo.blogspot.com/2011/09/bloom-e-leitura-afirmo-seguidamente-que.html

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