Faxineira varre lixo para debaixo do tapete

(Janer Cristaldo)

–  Leitores me cobram. Por que não falo de corrupção? Bom, em verdade gosto de escrever sobre o que a imprensa não escreve. Corrupção, neste Brasil, virou usos e costumes. Sem falar que não passa dia sem que os jornais revelem uma grossa falcatrua. Seria para mim redundante comentar o assunto.

Dona Dilma está adquirindo a fama de faxineira. Faxineira coisa nenhuma. Quem está fazendo a faxina é a imprensa. Nenhum dos quatro ministros demitidos nos últimos oito meses foi demitido por iniciativa da presidente. Dona Dilma só os demitiu quando não foi mais possível segurá-los. Nem mesmo a oposição denuncia a corrupção do governo. O PSDB vive em beijos e abraços com o PT. A única oposição neste país é feita pelos jornais.

Oposição inócua. Quatro ministros foram demitidos por corrupção. Antonio Palloci, que já havia sido demitido por Lula em 2006 do cargo de ministro da Fazenda – sempre por pressão da imprensa – voltou ao governo de Dilma e teve de pedir demissão da chefia da Casa Civil, em virtude de denúncias de enriquecimento ilícito. Alfredo Nascimento, dos Transportes, teve de cair fora após suspeitas de superfaturamento em obras de rodovias; Wagner Rossi, da Agricultura, também, por ter usado um jatinho de uma empresa privada que tinha contratos com o ministério. Pedro Novais, do Turismo, teve de renunciar às suas mordomias por ter pago com verbas públicas, durante sete anos, o salário de uma governanta. Antes disso, já havia sido denunciado por pagar com dinheiro do contribuinte despesas de um motel.

Alguém foi preso ou de alguma forma punido? Alguém devolveu o dinheiro roubado? Nenhum. Palocci e demais defenestrados devem continuar fazendo lobby por aí. Novais voltou a ocupar sua cadeira de deputado. As denúncias da imprensa podem até retirar ministros de seus pedestais. Mas acabam caindo no vazio. Corruptos como José Dirceu, flagrados em óbvias corrupções, continuam recebendo altos coturnos do governo em quarto de hotel. Dos quarenta mensaleiros, denunciados pelo Ministério Público por formação de quadrilha, nenhum até hoje foi punido. E os crimes de pelo menos 22 prescreveram no mês passado.

Corrupção no Legislativo e Executivo são graves chagas em país que se pretenda decente. Mas nada pior que a corrupção no Judiciário. Pois este poder é o que determina, legalmente, o que é lícito ou ilícito na nação. A tal de Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça acaba de absolver, em um caso de flagrante corrupção, o clã do corrupto-mor de Pindorama, o senador José Sarney, que – não por acaso – é presidente do Senado. Quando um corrupto notório preside a mais alta instância legislativa do País, nada mais se pode esperar de seus pares ou ímpares.

Leio no Estadão que o julgamento no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que anulou as provas da Operação Boi Barrica, tramitou em alta velocidade, driblando a complexidade do caso, sem um pedido de vista e aproveitando a ausência de dois ministros titulares da 6.ª turma. O percurso e o desfecho do julgamento provocam hoje desconforto e desconfiança entre ministros do STJ.

O relator do processo contra a Operação Boi Barrica, ministro Sebastião Reis Júnior, demorou apenas seis dias para estudar o processo e elaborar um voto de 54 páginas em que julgou serem ilegais as provas obtidas com a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico dos investigados. E de maneira inusual, dizem ministros do STJ, o processo foi julgado em apenas uma sessão, sem que houvesse nenhuma dúvida ou discordância entre os três ministros que participaram da sessão.

O velho e eficaz recurso aos arabescos colaterais. Não importa se as provas de um crime são procedentes ou não. O que importa é a forma como foram obtidas. Não se julga mais o mérito de uma questão. Mas os procedimentos de investigação. Corrupto perde tempo se constituir como advogado um criminalista. Estará melhor servido com um processualista. Não interessa mais se alguém cometeu ou não um crime. O que interessa é como foi denunciado.

O PT inaugurou o governo mais corrupto do qual se tem notícia no Brasil. Dona Dilma, enquanto ministra da Casa Civil, foi ciente e conivente com toda esta corrupção. Posa agora de faxineira. Mas só tem varrido o lixo para baixo do tapete.

Fosse o caso de minha faxineira, eu a demitiria incontinenti. Mas brasileiro é generoso. Corruptos notórios – vide Sarney – denunciados pela imprensa se reelegem ad aeternum. José Dirceu quer voltar à política. Se voltar, é claro que será reeleito. O problema do Brasil não são os corruptos. Corrupto segue sua vocação natural – como um rio segue sua corrente – a de ser corrupto.

O problema é este povinho que os elege e reelege.

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