O “preto” Machado

(Antonio Carlos A. Gama) –  

A Caixa Econômica Federal resolveu tirar do ar o comercial de comemoração dos seus 150 anos em que Machado de Assis era o protagonista, e emitiu nota pedindo desculpas “a toda a população e, em especial, aos movimentos ligados às causas raciais, por não ter caracterizado o escritor, que era afro-brasileiro, com a sua origem racial.”

Sim, Machado de Assis era interpretado por um ator branco, ou não afrodescendente, para continuarmos com o politicamente correto.

Havia assistido ao comercial apenas uma vez e o que mais me incomodou foi ver o circunspecto Machado de Assis, à sua revelia, bancando o garoto-propaganda de um banco (para mim todos os bancos e banqueiros são suspeitos, e se não soubermos bem do quê, eles, como a mulher de malandro, saberão).

Cheguei a me indagar se apesar disso não seria salutar a divulgação da figura do nosso escritor maior para as novas gerações e outros incautos que só reconhecem a vida e o mundo pelas telas, telinhas e telões. Mas, daquele jeito — francamente! — como Bartleby achei melhor não.

A atuação do ator não me agradou, nem mesmo se assemelhava no gestual e na expressão a Machado de Assis (ou à ideia que faço dele), e cheguei a comentar com minha mulher que ele estava muito branco.

Aliás, há tempos se controverte sobre um paulatino embranquecimento de Machado ao longo da vida, desde o serelepe Machadinho até o augusto patriarca da Academia Brasileira de Letras. Alguns chegam a criticá-lo por isso, pasme-se!

O que lhe embranqueceram foram a barba e os cabelos, além de ter assumido a postura de dignidade que lhe trouxeram o passar dos anos e a madureza, e era comum aos homens de antanho.

Pasquale Cipro Neto comentou o assunto na sua coluna de quinta-feira passada na Folha de S. Paulo, citando os versos da canção “Sugar Cane Fields”, registrada como parceria de Caetano Veloso e do poeta Sousândrade: “Sou um mulato nato / No sentido lato / Mulato democrático do litoral”. Anotou ainda: “Já li e ouvi gente dizendo que a peça publicitária da CEF é racista etc. Cá entre nós, caro leitor: em sã consciência, alguém acha mesmo que nos dias de hoje alguém “embranqueceria” Machado de Assis por preconceito racial? Nem o mais ardoroso e idiota adepto da Ku Klux Klan teria a “brilhante” ideia de “embranquecer” o grande Machado. Será que o problema não é outro? Será que o problema não se chama pura e simplesmente desinformação? Ou, para quem não gosta de eufemismos, ignorância?”

Talvez o professor Pasquale tenha razão, mas racismo e qualquer outro tipo de preconceito são filhotes da madre ignorância, o que em nada atenua o equívoco grosseiro da CEF, dos publicitários e dos demais responsáveis pelo vídeo.

Ocorre-me, a propósito, uma passagem das memórias do ensaísta, poeta, historiador, embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva, que consta do seu livro “Invenção do desenho — Ficções da Memória” (que belo título!), editado pela Nova Fronteira.

No início da sua carreira diplomática, Da Costa e Silva — como o chamavam no Itamaraty — acabou designado para a embaixada em Lisboa, num momento particularmente delicado das relações entre os governos brasileiro, com Juscelino na presidência, e português, sob o comando do ditador Salazar. O mal-estar se agravara em razão da atitude do crítico literário Álvaro Lins, então embaixador em Lisboa (já removido àquela altura e de volta ao Brasil amargurado e furioso por se sentir traído), que dera asilo político na embaixada brasileira ao general oposicionista Humberto Delgado.

Quando teve uma pequena folga em Lisboa, Alberto da Costa e Silva participou de um episódio de sabor machadiano, por ele relatado brevemente:

“Fanor Cumplido trouxe-nos uma novidade: havia localizado nos arredores do Porto duas sobrinhas de Carolina de Machado de Assis e acertara um encontro com elas. Para lá fomos cheios de expectativas, ele, Victor José da Silveira e eu.

As senhoras nos receberam muito bem. E, enquanto nos serviam o chá, perguntaram qual a razão de nossa visita. Por serem elas sobrinhas de d. Carolina Dias de Novaes — explicamos —, queríamos saber se podíamos ter acesso a fotografias, cartas ou qualquer outro documento que dele tivessem. Uma das senhoras respondeu-nos, atenciosíssima, que infelizmente não tinham uma só foto, carta ou memória da tia. Tudo o que dela sabiam é que fora para o Brasil e lá se casara com um preto.”

A CEF — que se jactancia no comercial de haver tido Machado de Assis como cliente — e seus publicitários nem mesmo disso sabiam.

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