Farsa democrática na Arábia dos Saud

(Janer Cristaldo) 

– Há muitos jornalistas saudando a tal de primavera árabe, como se fosse um prenúncio de democracia no Magreb e Oriente Médio. Mantenho minhas reservas. É completamente inviável qualquer possibilidade de democracia em sociedades teocráticas. Enquanto Alá existir e Maomé for seu profeta, democracia não é primavera, mas fugaz sonho de uma noite verão. Como Alá é eterno, que percam os árabes qualquer esperança de democracia. Democracia só existe no Ocidente. E só depois que a Europa deu um chega-pra-lá na Igreja de Roma.

Leio em despacho da Associated Press que o rei saudita Abdullah deu às mulheres o direito de votar pela primeira vez em eleições locais marcadas para 2015. O rei afirmou em um discurso anual à assembléia, ou Conselho Shura, que as mulheres sauditas poderão concorrer e votar nas eleições municipais.

Votar para vereadores, bem entendido. Rei é rei e não se submete a eleições. A Arábia Saudita assim se chama porque pertence ao clã dos Saud. Algo como se o Brasil se chamasse País dos Silvas. Ou talvez Silvalândia.

Abdullah também afirmou que mulheres serão indicadas para se juntar ao Conselho Shura, que é todo formado por homens e escolhido pelo rei. A Arábia Saudita teve sua primeira eleição municipal da história em 2005. O reino realizará a próxima eleição municipal amanhã, mas desta vez as mulheres não poderão votar. Voto feminino sim. Mas devagar.

Há quem atribua esta decisão de Abdullah aos ventos que sopram da Tunísia, Egito e Líbia. Ou seja, aos ventos da tal de primavera árabe. Ironicamente, dois dias depois do anúncio do voto feminino, noticiou-se que uma mulher saudita, Shaima Ghassanya, receberá dez chibatadas por dirigir um carro. Na Árabia dos Saud mulher é proibida de dirigir. Não por lei, mas por éditos de religiosos. Votar, até pode ser.

Dirigir, jamais. Uma mulher dirigindo é um perigo. Pode afastar-se de casa e dedicar-se a essa abominável prática ocidental, a de praticar sexo antes do casamento. Ou depois, o que é pior.

Fosse só isto seria pouco. Na Arábia dos Saud uma mulher só pode sair à rua se estiver acompanhada por um macho. A escritora somali Ayaan Hirsi Ali conta que foi ao encontro de seu marido, se bem me lembro, em Riad. Por alguma razão qualquer, ele não compareceu ao encontro. Ela ficou presa no aeroporto, pois não tinha macho para acompanhá-la na saída.

Não venham então falar-me de primavera ou democracia. No mundo regido pelo Corão, um divórcio se resolve com apenas três palavrinhas do amo e senhor. É a lei dos três talaqs. À menor insubmissão da mulher, o marido diz: talaq. É um aviso. Se ela insiste em não fazer a vontade de seu amo e senhor, o marido repete: talaq. Na terceira insubmissão, o terceiro e definitivo talaq. Está consumado o divórcio, sem essa tralha inútil de cartórios e advogados. Talaq, talaq, talaq e passar bem.

Aconteceu na Arábia dos Saud, em 79, em uma copa de futebol. O fato foi relatado no jornal Al Medina, de Riad. Abdul Rahman El Otaibi, rico comerciante, assistia ao jogo entre a equipe Ittihad, de Djeddah, e a equipe Ahli, de Riad. Abdul torcia por Ittihad, sua mulher preferia encorajar os Ahli. Para desgraça da senhora El Otaibi, seu time marcou um gol. Ela vibra e Abdul pronuncia a fórmula ritual:

– Em nome de Alá, eu te repudio.

O primeiro talaq fora pronunciado. O jogo continua. Os Ahli fazem um segundo gol, a senhora Otaibi não se controla e aplaude seu time. Abdul repete a fórmula:

– Em nome de Alá, eu te repudio.

Segundo talaq. Para suprema desgraça da senhora Otaibi, o demônio não brinca em serviço. Quis o destino que os Ahli marcassem um terceiro gol. Ela vibra. Abdul pronuncia pela terceira vez a fórmula fatídica:

– Em nome de Alá, eu te repudio.

Terceiro talaq. A partir do terceiro gol, a senhora Otaibi estava divorciada. O caso acabou na corte corânica de Meca. Para sua sorte, em algum lugar disse Maomé: “o divórcio não será válido se for pronunciado sob o império de cólera extrema”.

Em severo editorial, o Al Medina anatematizava não o Corão, evidentemente, mas o futebol: “até quando nossa obsessão pelo futebol continuará a destruir o caráter sagrado de nossa família?”

Em país árabe, democracia sempre será uma farsa.

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