Globo Sanitizing

(Janer Cristaldo)

Longe de mim interessar-me por novelas da Globo. Difícil dizer o que abomino mais, se as tais novelas ou os atores de tais novelas. Mas o caso aqui é outro. Que o PT queira censurar a imprensa quando tem suas falcatruas denunciadas, não se justifica mas até que se entende: defender-se é uma reação lógica de todo bandido. Mais difícil de entender é ver uma ministra petista – aquela mesma que quis censurar o anúncio de lingerie da Bündchen – pretender determinar os rumos de uma novela.

Não vejo novela alguma. Até tentei ver, pelo menos para saber do que se tratava. Não consegui agüentar por mais de cinco minutos. Enredos idiotas, diálogos idem, atores canastrões. Sempre que sei algo sobre o mundo televisivo, é porque leio nos jornais. Diga-se de passagem, acho uma falta de respeito ao leitor os jornais noticiarem episódios de novela como se fossem fatos da vida real. Mas vamos ao assunto.

Na novela Fina Estampa, a personagem Celeste, interpretada pela atriz Dira Paes, é sistematicamente agredida pelo marido Baltazar, interpretado por Alexandre Neto, e não tem a coragem de denunciá-lo. Quarta-feira passada, a ministra Iriny Lopes enviou um ofício à TV Globo sugerindo que Baltazar fosse punido. Houve uma grita geral nos jornais, denunciando que a ministra queria censurar uma ficção.

Diria que não. O Brasil está cheio de mulheres espancadas que apanham todos os dias e jamais dão queixa de seus maridos. Neste sentido, a novela se aproxima do documentário. O que a ministra quis, no fundo, foi dar um caráter ficcional à novela, ao exigir que o personagem fosse punido. Pois punição de marido espancador, neste país, está mais para ficção do que para realidade.

Na sexta-feira, a famigerada ministra baixou o tom. Afirmou que deu apenas uma sugestão ao pedir que a TV Globo ajudasse a divulgar o serviço de Atendimento à Mulher e Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180. Ao que tudo indica, quer fazer merchandising de graça. Ora, as televisões têm um preço para isso.

Seja como for, uma interferência no trabalho de um ficcionista. Se eu sou o autor da ficção, meus personagens fazem o que eu, autor, quero. Não o que uma ministra quer. Lembro que há alguns anos houve quem não gostasse do tratamento dado aos negros em determinados novelas. Que o negro era mostrado como uma pessoa servil, ou algo parecido. Mas se eu quero pintar um negro servil em minhas ficções, nada nem ninguém pode impedir de assim definir meu personagem. Afinal, o zdanovismo morreu com o comunismo.

Esta mania vem de longe, desde os dias em que as esquerdas adotaram o politicamente correto, em verdade um eufemismo para o stalinismo na literatura e nas artes. Quem não lembra da recente affaire em torno a Monteiro Lobato? O Conselho Nacional de Educação (CNE) sugeriu que o livro Caçadas de Pedrinho não seja distribuído a escolas públicas, ou que isso seja feito com um alerta, sob a alegação de que é racista.

Conforme o parecer do CNE, o racismo estaria na abordagem da personagem Tia Nastácia e de animais como o urubu e o macaco. “Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano”, diz a conselheira que redigiu o documento, Nilma Lino Gomes, professora da UFMG. Entre os trechos que justificariam a conclusão, o texto cita alguns em que Tia Nastácia é chamada de “negra”. Outra diz: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”.

Se o CNE viu racismo na abordagem de Tia Nastácia, é porque não leu O Presidente Negro, onde Lobato reduz os negros a pó de mico. Para Miss Jane, personagem americana do romance, a América seria a privilegiada zona que havia atraído os elementos mais eugênicos das melhores raças européias. O Mayflower trouxera homens de uma têmpera superior que não hesitaram um segundo “entre abjurar das convicções e emigrar para o deserto”. As leis de imigração se tornam seletivas e as massas que procuravam a América, já em si boas, são peneiradas. A Europa é drenada de seus melhores elementos e no novo mundo resta a flor dos imigrantes. Ocorre então o que Miss Jane chama de “o erro inicial”: entra no país, à força, o negro arrancado da África. O Sr. Ayrton observa que o mesmo erro foi cometido no Brasil, mas nossa solução foi admirável: em cem ou duzentos anos teria desaparecido o nosso negro em virtude de cruzamentos sucessivos com o branco.

Miss Jane não julga admirável tal solução, mas medíocre, pois estraga as duas raças ao fundi-las. Prefere que ambas se desenvolvam paralelas dentro do mesmo território, separadas por uma barreira de ódio, a mais profunda das profilaxias. Para ela, o ódio mantém as raças em estado de relativa pureza.

Mais dia menos dia, será censurada entre nós qualquer tradução de Martín Fierro. Pois o negro não fica bem na obra de Hernández. Retraduza-se também a Bíblia, onde no Cântico dos Cânticos Sulamita diz: “Eu sou negra, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão”. Vamos à Vulgata Latina, tradução da qual deriva a maior parte das traduções atuais. Lá está: nigra sum, sed formosa. A Vulgata, por sua vez, deriva da tradução dos Septuaginta – feita a partir do original hebraico – onde está, em grego: Melaina eimi kai kale.

No Brasil, até mesmo as idéias de jerico são importadas. Esta mania de interferir na ficção data de 2005, quando o presidente norte-americano George W. Bush assinou uma Lei de Entretenimento Familiar e Direitos Autorais, destinada a “sanitizar” a comercialização em DVDs de produções de Hollywood.

Estava inaugurado o insólito film sanitizing. Seriam produzidas novas versões dos filmes que excluíam cenas de violência excessiva, homossexualismo e até relações extraconjugais. As novas medidas nada tinham a ver com proteger a infância, como pretendiam seus defensores. Segundo Robert Rosen, especialista em cinema da Universidade da Califórnia, “há todo tipo de motivações religiosas, políticas e ideológicas por trás disso”. A maioria das companhias sanitizadoras, que têm nomes como Filmes Família, Filmes Limpos e Jogo Limpo, começou a operar no Estado de Utah, atendendo sobretudo à grande população mórmon.

Ou seja, um cineasta faz um filme e você vê outro. No filme The Hurricane, de 1999, de Norman Jewison, todas as agressões verbais racistas feitas por policiais contra o protagonista foram retiradas. De The Sponge Bob Square Pants Movie, desenho animado de Stephen Hillenburg, foram retiradas as cenas homossexuais. “Nós não odiamos homossexuais”, afirma Sandra Teraci, porta-voz de uma empresa sanitizadora. Apenas não acreditamos que esse estilo de vida deva ser glorificado. Isso é crescente em cada vez mais gêneros de filmes”. A empresa Filmes Limpos, por exemplo, já tem mais de 800 produções sanitizadas em seu catálogo para aluguel ou venda, desde que começou o negócio, em 1999. Quanto ao autor, que se lixe.

A ministra, além de pretender sanitizar a publicidade, quer também sanitizar a rede Globo. Um autor não é mais senhor de suas ficções. Melhor consultar a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres antes. A última palavra sobre os rumos de sua novela pertence ao PT.

Só Stalin ousou tanto.

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