Califórnia impõe ditadura alimentar

(Janer Cristaldo)

Estou voltando à Europa e, como não poderia deixar de ser, com uma perna em Paris. Vou com alguns objetivos, mas com um muito específico: comer um camembert no Procope. A lembrança de um que lá comi em dezembro passado é um poderoso impulso para voltar. É um queijo tinhoso, exige uma certa educação do palato. Não adianta muito comê-lo aqui, o camembert não viaja bem.

Se seu sabor não resiste após três ou quatro dias, seu odor persiste. Tenho um amigo que sempre me brinda com um camembert quando volta de Paris. Para espanto da Cristina, minha assessora de assuntos domésticos. A cada vez que encontra um aqui em casa, me avisa: “Professor, tem algo podre na geladeira”. Deixa pra lá, Cristina, é isso mesmo.

Nos anos em que vivi em Paris, houve uma sórdida campanha na Europa – liderada pela Alemanha, se bem me lembro – contra os queijos não pasteurizados. O alvo, me pareceu, era o camembert. Como me dizia um amigo francês, “só se for sobre meu cadáver”. Queijo bom é aquele que, quando a gente vai cortar, ele sai andando. Durante séculos, a Igreja proibiu uma das boas coisas da vida, os prazeres da carne. (Falo da carne humana, não bovina ou suína). Hoje, vemos todos os dias o Estado tentando interferir nos outros prazeres, o da carne animal.

Enquanto a Associação Médica da Califórnia anuncia ter adotado uma política oficial que recomenda a legalização e a regulamentação da maconha, em oito meses a Califórnia será o primeiro Estado dos EUA a criminalizar o foie gras. Leio no El País que, decorrido esse prazo, os californianos terão de viajar mais além das linhas de demarcação estatais. A partir de julho de 2012, entrará em vigor uma lei que proíbe vender ou servir nos restaurantes esta iguaria, por crueldade no tratamento aos patos e gansos para que seus fígados engordem até converter-se em uma carne de luxo.

A legislação não é nova. Segundo o jornal, data de 2004 e foi assinada pelo então governador Arnold Schwarzenegger e apoiada por celebridades como Paul McCartney. Aos produtores foram concedidos quatro anos de prorrogação para que encontrassem uma técnica alternativa à que se usa, que consiste em forçar alimento várias vezes ao dia às aves para engordar artificialmente seus fígados. Como não foi encontrado método alternativo, o foie gras não mais estará nos cardápios no verão que vem. Ou seja, o aval de um roqueiro drogado está fazendo legislação nos Estados Unidos.

Daí a proibir o consumo das ostras, só falta um passo. Coitadinhas, são comidas vivas e ainda submetidas a uma aspersão de limão. Proíbam-se também as angulas, um dos pratos mais reputados da culinária espanhola. As pobrezinhas são mortas com tabaco. E, se os californianos forem coerentes, proíba-se o consumo de todo e qualquer animal, afinal a morte é sempre um sofrimento. O budismo está se impondo aos ianques. A tradição budista é vegetariana. Devemos tentar diminuir o sofrimento que causamos ao viver. Adeus filé, adeus picanha, adeus fraldinha. Que morram os vegetais.

Malucos estão querendo impor no mundo todo seus dogmas alimentícios. Que judeus, árabes e hindus os cultivem, por razões religiosas, azar o deles. Daí que queiram impor aos demais cidadãos tais dogmas, já é ditadura alimentar. Os frangos produzidos para abate também sofrem desconforto semelhante ao dos patos e gansos. E daí? Vão proibir também o consumo de frangos?

Preceitos alimentares são importantes para fanáticos e estão na origem da independência da Índia. Não sei se o leitor ouviu falar de The Rising: Ballad of Mangal Pandey, filme de Ketan Mehta, de 2005, um épico indiano sobre episódio real ocorrido no século XIX, uma revolta, em 1857, contra os colonizadores ingleses. Dela fez parte Mangal Pandey, um soldado a serviço da Companhia da Índia Oriental – uma das empresas britânicas mais poderosas a operar na colônia, tão poderosa que tinha a sua própria milícia, supervisionada pelo exército de Sua Majestade. E por que a revolta?

Porque o exército inglês havia decidido trocar de rifles, e os novos rifles tinham um cartucho que precisava ser cortado com os dentes. Como era besuntado com gordura de porco e de vaca, mexeu com o brio dos indianos, tanto hinduístas como muçulmanos. Para os indianos, carne de vaca era tabu. Para os muçulmanos, tabu era a carne de porco. Mangal Pandey rebelou-se contra a determinação dos britânicos. Enforcado, virou um proto-mártir da independência da Índia.

Para algo serviu Pandey. Mas mostra como podem ser poderosos, por razões religiosas, os hábitos alimentares. No Ocidente, teoricamente, estamos livres de tais dogmas. Ou talvez não, como pretende a Califórnia. Só o que faltava privar-se do foie gras, porque patos e gansos são alimentados à força.

Se o pecado, séculos atrás, era o sexo, hoje passou a ser a gula.

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