O FUNDAMENTO DA FAMÍLIA

(por Janer Cristaldo)

– Há alguns anos, aprendi mais um significado de uma antiga palavra. Recordando antigos reencontros, qualifiquei um personagem de minha adolescência como mitômano. Como mitômano porque cultuava mitos, desde Greta Garbo e Charlie Chaplin a Che Guevara. O homem me telefonou furioso. Que me processava, que tinha boas relações junto ao Judiciário, que iria destruir-me. Perplexo, eu não entendia as razões de sua fúria. “Me chamaste de mentiroso contumaz”. Nada disso, meu caro, falei em mitômano, o que cultua mitos. Pois não é que a palavrinha, apesar de seu étimo, significa mentiroso contumaz? Não era esta minha intenção. Retirei então o texto do blog. Naquele dia, enriqueci meu vocabulário.

Comentando para o UOL a história da moça grávida de quadrigêmeos, que enganou como a um patinho toda imprensa nacional, diz o psiquiatra de Porto Alegre Abelardo Ciulla: “Se a mentira tem o caráter inicial de fazer mal ou levar a um ganho próprio, é uma sociopatia. Senão, é caracterizada como mitomania, a mentira patológica”. Segundo a reportagem, é impossível terminar o dia sem ter contado uma mentirinha. Ainda que seja dizer que a sua namorada não engordou, mesmo ela tendo ganhado uns quilinhos, ou que é incrível aquela tarefa insuportável que seu chefe te pediu. Essas são as chamadas mentiras sociais, sem maldade, que são essenciais para evitar conflitos. Já o mentiroso mau caráter está sempre à procura de algum benefício. “Esse tipo usa histórias inventadas para conseguir um ganho material ou emocional e não sente culpa se prejudicar outras pessoas”, afirma a neuropsicóloga Andrea Bandeira, do Rio de Janeiro.

Devo ser um anormal. Minhas últimas pequenas mentiras datam da infância, para fugir a alguma punição. Logo descobri que mentir é complicado. Precisamos criar outras mentiras para justificar a primeira, e se contamos mais de uma, haja memória para administrar todas. De lá para cá, não lembro de ocasião em que tenha mentido. Se uma namorada está gordinha, digo logo sem problema algum. E tampouco puxei saco de chefes nos dias em que tinha chefe.

Sei, há a mentira piedosa. David Servan-Schreiber, psiquiatra francês que morreu de câncer em 2011, se perguntava em um de seus livros se é legítimo mentir a um doente em estado terminal. “Como dizer a mais importante das verdades a um homem cuja vida toda foi uma mentira?” Não lembro da resposta, mas creio que ele admitia ser legítimo mentir nestas circunstâncias.

Os filósofos que discutem ética sempre levantam um argumento. Estou sentado em um bar e vejo uma mulher correndo que dobra a rua à direita. Logo depois, surge um homem também correndo, com um revólver em punho e me pergunta: para que lado ela foi? Se digo a verdade, estou condenando a mulher à morte. Isto é, há casos em que a mentira se impõe.

Fora estas circunstâncias excepcionais, não vejo motivos para mentir. Claro que quem mente para ganhar dinheiro ou vantagens, usa a mentira como método. Neste caso, a mentira pode ser crime e pode levar o mentiroso às grades.

Quem sofre de mitomania não fantasia histórias visando o lucro. Segundo Andrea, a mitomania não faz parte da classificação de doenças mentais, ficando mais próxima de um transtorno que acomete pessoas com características de baixa autoestima e/ou que passaram por algum trauma. “A pessoa se sente inferiorizada e tem a necessidade de ‘pintar’ as coisas com uma mentira que ela gostaria que fosse verdade”, diz Abelardo Ciulla. Para o psiquiatra Elie Cheniaux Júnior, professor adjunto na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e membro da ABP, o mitômano é sempre o protagonista de histórias heroicas. “Alguns autores dizem que ele sabe que conta uma mentira, outros dizem que ele acaba se convencendo de que aquilo é verdade.”

São mentiras que, a rigor, não prejudicam ninguém. Mas há categorias profissionais em que a mentira é uma segunda natureza. O caso mais gritante são os padres e pastores. Todo seu discurso parte de uma mentira fundamental, a de que deus existe, mentira na qual muitos nem acreditam. Depois vem uma fieira de mentiras menores para justificar a maior. Religiosos não conseguem sobreviver sem a mentira. Mal abrem a boca, já estão mentindo.

Para começar, a Bíblia não condena a mentira. Já no Gênesis, a mentira é vista como algo natural e nada condenável. Segundo Jean Soler, no terceiro volume de sua excelente trilogia, intitulado La Loi de Moïse, esta lei não condena a mentira. “Os propósitos enganadores na vida quotidiana não são objeto de nenhum mandamento. Só é proibido o falso testemunho, diante dos tribunais, sobretudo porque ele se apóia sobre um falso juramento em nome de Jeová, o que é condenar menos a mentira que o uso sacrílego do nome de Deus. Nenhuma proibição bíblica ou mesmo rabínica diz: “Tu não mentirás”.

Felizmente para Jacó, continua o autor: é por instigação de sua mãe, Rebeca, que ele mente a seu pai para dele extorquir a bendição que lhe dará, de forma irreversível porque sagrada, os privilégios devidos aos mais velhos. Ele mente sem escrúpulo algum. Ele opõe uma única objeção a sua mãe tentadora, que não diz respeito ao caráter imoral do ato que vai cometer, mas aos riscos em que incorre: “Talvez meu pai me toque, ele verá que o enganei e atrairei sobre mim a maldição em lugar da benção”.

As mulheres dos patriarcas têm uma grande facilidade para mentir, escreve Soler. A doce Raquel, esposa preferida de Jacó, rouba de seus pais os ídolos domésticos quando ela deixa Labão para seguir seu marido. Labão, que notou a desaparição dos ídolos, revista as tendas de Jacó. Quando ele entra naquela em que está Raquel, sua filha diz: “Que meu senhor não se irrite se eu não posso levantar diante de ti pois tenho aquilo que acontece às mulheres”.

Labão procura por toda parte e vai embora. Ela não tinha suas regras, estava sentada sobre as estatuetas. Ou seja, se Jeová vê com benevolência as mentiras dos seus, não há porque vê-las, na cultura ocidental, como algo abominável. Liberada a mentira, ela vira um instrumento de massacre. O autor nos lembra ainda o caso de um príncipe cananeu, que raptou Dina, a filha de Jacó e de Lea. Enamorado por Dina, o príncipe a pede em casamento ao pais. Os filhos de Jacó aceitam, desde que todos os cananeus se submetam à circuncisão. “Então nós lhes daremos nossas filhas e pegaremos as vossas para nós, permaneceremos convosco e formaremos um só povo”.

Todos os homens da cidade cananéia se circuncidam. No terceiro dia, quando os cananeus ainda se recuperavam da cirurgia, em vez de entregar Dina e demais mulheres da tribo, Simeão e Levi, os irmãos de Dina, marcham contra a cidade e matam todos os homens. “Eles se apossaram do pequeno e do grande rebanho, de seus asnos, do que estava na cidade e do que estava nos campos. Tomaram pela força todos os seus bens, todas suas crianças e mulheres e pilharam tudo que havia dentro das casas”.

Tudo sob o olhar complacente de Jeová, que se era complacente em relação aos seus, não tinha complacência alguma pelos não-judeus. Se desde os primeiros versículos do primeiro livro do Livro a mentira é aceita como pretexto para massacres, não espanta que seja prática comum ao longo da Bíblia.

Outra faixa que tampouco sobrevive sem a mentira, são os marxistas. A primeira mentira marxista é a utopia. Pretendem – ou pretendiam – criar um mundo inviável, uma espécie de paraíso terrenal. Na busca desse paraíso, vale tudo: assassinatos, massacre, tortura, censura, gulags, distorsão da história. A URSS, desde seus primórdios, foi uma mentira colossal, a mais imponente do século passado. Um assassino como Stalin foi transfigurado em herói, santo e mesmo deus. Idem Mao Tse Tung. Ou Envers Hodja. Ou Ceaucescu. Ou mesmo Fidel Castro, tiranete menor que apesar de ter levado um país à miséria e assassinado milhares de dissidentes, ainda hoje é reverenciado no Brasil, a ponto de a presidente do país ter ido lamber-lhe as botas.

A elite intelectual de todos os países do Ocidente participou desta mentira e o Brasil não poderia ficar atrás. Mentiroso mor, Jorge Amado é até hoje celebrado como grande escritor. Mentirosos menos reputados: Luiz Carlos Prestes, Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna, Oscar Niemeyer, Zuenir Ventura, Chico Buarque, Luís Fernando Veríssimo, Tarso Genro. E milhares de outros. Comunista é aquele tipo de mitômano que, segundo os estudiosos, acaba se convencendo de que a mentira é verdade.

Todo político, seja de qual partido for, é mentiroso por definição. Sem mentir, jamais será eleito. Seu discurso deve ser conforme a platéia gosta. E por isso muda tanto, conforme o público a quem fala.

Mas há uma mentira maior, bem mais envolvente que a mentira e mais vasta que a mentira religiosa, ideológica ou política. É a mentira conjugal. Ainda há pouco, em Minas, um cidadão matou a mulher a facadas, para depois suicidar-se, também a facadas. Duas vidas certamente plenas de mentiras. Estes crimes, ditos passionais, estão todos os dias nas páginas dos jornais. Houve momento em que sequer constituíam crime. O argumento de legítima defesa da honra absolvia o assassino. Mas que honra é essa que exige sangue para ser lavada?

Que as pessoas mintam para ganhar dinheiro, para ostentar status, para fazer de si alguém importante, até que entendo. Não justifico, mas entendo. O que não entendo mesmo é como uma pessoa possa mentir para outra que vive sob seu teto e partilha de seu leito. É como se alguém dormisse dez, vinte, trinta, cinqüenta anos ao lado de um parceiro sem sequer conhecê-lo.

Esta mentira, no entanto, é universal. Conheço alguns casais que são fiéis e não mentem um ao outro. Se contá-los nos dedos, sobra um monte de dedos. Mas a regra é a infidelidade, geralmente por parte do macho, e a mentira. Neste caso, tem sentido a afirmação de que é impossível terminar o dia sem ter contado uma mentirinha.

Esta gente mente o tempo todo, a cada dia, a cada hora, a cada minuto. Aparentemente, a mentira é o fundamento da família.

 

– Enviado por Janer @ 7:47 PM

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