SANITIZANDO A BÍBLIA

(por Janer Cristaldo )

Nestes dias em que o “politicamente correto” virou cartilha no Brasil, surge nos Estados Unidos o insólito “film sanitizing”. O presidente norte-americano George W. Bush assinou, em abril passado, uma Lei de Entretenimento Familiar e Direitos Autorais, destinada a “sanitizar” a comercialização em DVDs de produções de Hollywood. Seriam produzidas novas versões que excluem cenas de violência excessiva, homossexualismo e até relações extraconjugais. É o que nos dizem os jornais. As novas medidas nada têm a ver com proteger a infância. Segundo Robert Rosen, especialista em cinema da Universidade da Califórnia, “há todo tipo de motivações religiosas, políticas e ideológicas por trás disso”. A maioria das companhias sanitizadoras, que têm nomes como Filmes Família, Filmes Limpos e Jogo Limpo, começou a operar no Estado de Utah, atendendo sobretudo à grande população mórmon.
Ou seja, um cineasta faz um filme e você vê outro. No filme The Hurricane, (1999), de Norman Jewison, todas as agressões verbais racistas feitas por policiais contra o protagonista foram retiradas. De The Sponge Bob Square Pants Movie, desenho animado de Stephen Hillenburg, foram retiradas as cenas homossexuais. “Nós não odiamos homossexuais”, afirma Sandra Teraci, porta-voz de uma empresa sanitizadora. Apenas não acreditamos que esse estilo de vida deva ser glorificado. Isso é crescente em cada vez mais gêneros de filmes.” A empresa Filmes Limpos, por exemplo, já tem mais de 800 produções sanitizadas em seu catálogo para aluguel ou venda, desde que começou o negócio, em 1999. Quanto ao autor, que se lixe.
Imagine o leitor se algum cineasta quisesse filmar hoje episódios da Bíblia. Para poupar trabalho aos sanitizadores, os produtores já poderiam começar sanitizando o roteiro. (A bem da verdade, muitos episódios bíblicos já foram filmados, sempre devidamente sanitizados, muito antes da censura dos mórmons de Utah). Não teriam pouco trabalho. Pra começar, seria oportuno eliminar o momento culminante do Gênesis: “Porque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites, e exterminarei da face da terra todas as criaturas que fiz”.
Hoje, bastam algumas centenas de mortos para a ONU falar em genocídio. Mas seria necessário enquadrar Jeová em uma nova definição de crime. Pancídio, talvez. Se a palavra não existe, eu a cunho agora. Pois “pereceu toda a carne que se movia sobre a terra, tanto ave como gado, animais selvagens, todo réptil que se arrasta sobre a terra, e todo homem”. Em sua ira, Jeová não poupa nem mesmo os demais seres vivos. (É de supor-se que tenham sobrevivido peixes e demais animais aquáticos). O que já o enquadra, concomitantemente, em outra tipificação de crimes, os ecológicos. Nem Hitler, nem Mao, nem Stalin, nem Pol Pot pretenderam tanto. Estes senhores pelo menos não tinham nada contra os animais. E tampouco poderes para executar o trabalho colossal de Jeová. Como era grande a maldade do homem na terra, por ela pagaram todas as espécies. Sem julgamento, nem direito de defesa. Violência excessiva. Sanitizing já!
Em suma, o Gênesis é rico em episódios que excitariam a sanha dos sanitizadores. Lá pelas tantas, o santo homem escolhido por Jeová para sobreviver às águas planta uma vinha. Como era de esperar-se, bebe do vinho. Embriagado, apresenta-se nu a Cão, seu filho. Alcoolismo e pedofilia, no mínimo. Tesoura de novo no Gênesis.
No episódio de Sodoma e Gomorra, Jeová retoma seus ímpetos genocidas e faz tabula rasa das duas cidades. Seus habitantes haviam pecado contra o Senhor e portanto deveriam ser exterminados. Só é salvo o único homem justo de Sodoma, Ló (e os seus), por sinal sobrinho de Abrão, que tinha canais
privilegiados com o Senhor. Ou seja, nepotismo não é coisa de hoje nem exclusividade do Congresso Nacional.
O Senhor envia dois anjos para parlamentar com Ló, o que despertou os desejos dos sodomitas. Os homens de Sodoma cercaram sua casa, “tanto os moços como os velhos, todo o povo de todos os lados e, chamando a Ló, perguntaram-lhe: Onde estão os homens que entraram esta noite em tua casa? Traze-os cá fora a nós, para que os conheçamos”.
Para salvar seus hóspedes, o único homem justo de Sodoma oferece à turba suas duas filhas, “que ainda não conheceram varão; eu vo-las trarei para fora, e lhes fareis como bem vos parecer: somente nada façais a estes homens, porquanto entraram debaixo da sombra do meu telhado”. O que não deixa dúvidas sobre o significado bíblico de conhecer. Aliás, a tradução da Bíblia feita por André Chouraqui é mais precisa: “Faze-os sair até nós, vamos penetrá-los”. Responde Ló: “Tenho duas filhas que homem algum jamais penetrou”. Sanitização urgente!
Não bastasse esta oferta indecorosa aos sodomitas – que, diga-se de passagem, não demonstraram interesse algum pelas moças – o santo homem Ló, como Noé, também era chegado ao fruto das vinhas. Eis então que o eleito do senhor toma novo porre e dorme com suas duas filhas, desprezadas pelos sodomitas. A primogênita dá à luz Moabe, o pai dos moabitas. A mais nova gera outro filho, Ben-Ami, o pai dos amonitas. Alegam as filhas que pretendiam conservar a descendência do pai. Fica a pergunta no ar: se o propósito era legítimo, para que embriagar o pai? Sei lá. Por via das dúvidas, melhor sanitizar. Incesto, ainda que com a mais nobre das intenções, não fica bem num filme-família.
Já que estamos falando de família, pulemos para Samuel. Mesmo admitindo-se que Noé, único sobrevivente do pancídio, precisava preservar a espécie, tampouco fica bem no livro que embasa a Santa Madre Igreja Católica aquele mulherio todo do sábio rei Davi: Mical, Abigail, Ainoã, Maacá, Hagite, Abital e Eglá, isso sem falar em seu adultério com Bate-Seba. Tampouco é muito honrosa para a biografia de um ascendente de Cristo mandar o heteu Urias, marido de Bate-Seba, para a frente de combates, para melhor usufruir dos encantos de sua mulher. “Ponde Urias na frente onde for mais renhida a peleja, e retirai-vos dele, para que seja ferido e morra”. Urias morreu. Poligamia, assassinato e adultério no livro da Igreja que prega o casamento indissolúvel? Sanitizemos Samuel.
Sem falar na ordem dada a seu filho Salomão, de matar Joabe e Simei, Davi carrega a morte de 70 mil israelitas. Davi faz um censo de seu povo, o que provoca a ira de Jeová. Como castigo, pode escolher entre três opções: “ou três anos de fome; ou seres por três meses consumido diante de teus adversários, enquanto a espada de teus inimigos te alcance; ou que por três dias a espada do Senhor, isto é, a peste na terra, e o anjo do Senhor façam destruição por todos os termos de Israel”. O sábio rei Davi não tem dúvidas, escolhe os três dias de peste. “Mandou, pois, o Senhor a peste a Israel; e caíram de Israel setenta mil homens”. Sanitização imediata, antes que alguém confunda a vontade do Senhor com holocausto. Holocausto é palavra que se usa apenas para os crimes de Hitler.
Incesto, poligamia, homossexualismo, assassinatos, vinganças, massacres em massa, genocídio. Devidamente sanitizado, talvez um filme sobre a Bíblia pudesse ser visto por mães e pais de família. Last but not least, não esquecer de cortar aquele inexplicável massacre de criancinhas, encomendado por um profeta careca. Estava Eliseu subindo a Betel, quando alguns meninos saíram da cidade e começaram a gritar: “sobe, careca; sobe, careca”. O santo homem amaldiçoou-os em nome do Senhor. Duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos. O politicamente incorreto é mais antigo do que se pensa e suas sanções eram bem mais duras que as hodiernas.
Isso sem falar na escravidão, que permeia a Bíblia de ponta a ponta, desde o Levítico até o Novo Testamento, onde é aprovada por Paulo, O fundador do cristianismo. Mas isso é outro assunto. Sanitizing now!

– Enviado por Janer @ 8:26 PM

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