PAÍS PERDE PIADISTA

(Jáner Cristaldo)

Havia em Dom Pedrito uma pequena biblioteca no prédio da Prefeitura. Pequena, mas bem nutrida. Lá, degustamos Cervantes e Platão, Balzac e Maupassant, Diderot e Descartes, para desespero dos padres oblatos que nos lecionavam. A Biblioteca dos Séculos, coleção editada pela Globo, de Porto Alegre, era nossa festa.

Adolescentes, provavelmente não chegamos a entender muito bem estes e outros autores. Mas deles ficou algo importante: havia muitas maneiras de se ver o mundo, quase todas divergentes, todas com maior ou menor parcela de razão. Naquela biblioteca, quando guri, tomei contato com o que entendo por humor. Não lembro quem chegou primeiro, se Voltaire, com Zadig, ou Cervantes, com o Quixote.

“Dichosa edad y siglo dichoso aquel donde saldrán a luz las famosas hazañas mías, dignas de entallarse em bronces, esculpirse en mármoles y pintarse en tablas, para memoria en lo futuro. Oh tú, sabio encantador, quienquiera que seas, a quien ha de tocar ser cronista desta peregrina historia! Ruegote que no te olvides de mi buen Rocinante, compañero eterno mío em todos mis caminos y carreras”.

Considero Cervantes antes de tudo um humorista. Este trecho, a meu ver, dá o diapasão de toda sua obra. Ali está o personagem e aquilo a que vem: desfazer tortos, para glória na eternidade. Esta divertida ironia em relação a si mesmo é o que mais me fascina no Quixote.

Swift veio um pouco depois, nos dias de universidade. Eu tinha uma vaga idéia de Liliput e das viagens de Gulliver, mas considerava que era literatura infantil. Foi quando um bom amigo alertou-me: nada disso, tchê, Swift é gênio. Isso de literatura infantil é decorrência das adaptações que editores fazem para adolescentes. Mergulhei na obra e até hoje o azedo dublinense é um dos meus autores de cabeceira.

Humor é algo muito britânico. Os ingleses deram ainda outras contribuições ao gênero, como Sterne e Thackeray. Fora estes, curti muito o americano Ambrose Bierce e o austríaco Karl Kraus. Dos italianos, fui leitor atento de Papini e Pitigrilli. Entre nós, gosto muito de Nelson Rodrigues (o cronista, particularmente) e de outro pouco conhecido autor, o Campos de Carvalho. Quem não leu A Lua vem da Ásia, A Vaca de Nariz Sutil, O Púcaro Búlgaro, A Chuva Imóvel, perdeu os melhores momentos da literatura nacional.

Nesta altura, já deve existir leitor me perguntando porque não cito o Machado. De fato, o carioquinha não deixa de ter seus momentos de humor. Em “A Sereníssima República”, conto de 1882, tido pelos machadistas como uma “vigorosa sátira política ao sistema eleitoral brasileiro”, o cônego Vargas comenta:

“[…] faleceu o primeiro magistrado, e três cidadãos apresentaram-se candidatos ao posto, mas só dois importantes, Hazeroth e Magog, os próprios chefes do partido retilíneo e do partido curvilíneo. Devo explicar-vos estas denominações. Como eles são principalmente geômetras, é a geometria que os divide em política. Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, é o partido retilíneo; outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, – é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este postulado: – as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-curvilíneo; e finalmente, uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez tabula rasa de todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e leve, em que não há linhas de espécie alguma”.

Verdade que, um século e meio antes, Swift escrevia:

“Embora o nosso Estado pareça florescente aos olhos do estrangeiro, o que é certo é que temos dois grandes males a debelar: de dentro, uma poderosa facção; de fora, a invasão de que estamos ameaçados por um formidável inimigo. Com respeito ao primeiro, preciso é que saiba que há setenta luas existem dois partidos contrários neste império, sob os nomes de Tramecksan e Slamecksan, termos derivados de altos e baixos tacões dos seus sapatos, pelos quais se distinguem. Não falta quem seja de opinião, é fato, que os tacões altos são mais conformes à nossa antiga constituição; apesar disso Sua Majestade resolveu servir-se apenas dos tacões baixos na administração do governo e em todos os cargos de Sua Majestade imperial são, pelo menos, mais baixos um drurr do que os de qualquer outra pessoa da corte. (O drurr é aproximadamente a décima quarta parte de uma polegada). O ódio dos dois partidos — continuou Keldersal — estão em tal grau, que não comem, não bebem juntos, nem se falam. Temos quase que a certeza de que os Tramecksans ou tacões altos são em maior número do que nós; a autoridade, porém, está na nossa mão. Contudo, andamos suspeitosos de que sua alteza imperial, o presuntivo herdeiro da coroa, tem alguma inclinação para os tacões altos; pelo menos tivemos ocasião de ver que um dos tacões é mais alto do que outro, o que o faz coxear um pouco”.

Paráfrase, dirão machadianos e machadistas. Para mim, paráfrase é eufemismo. Mas não é disto que pretendia falar. E sim do humorismo, gênero literário com o qual se preocuparam os grandes criadores de todos os séculos, desde Luciano de Samosata ao deão de Saint Patrick.

A imprensa – e particularmente a televisiva – tem o extraordinário condão de empobrecer as palavras. Aconteceu, por exemplo, com herói. Palavra que antes designava o autor de feitos notáveis, geralmente fora do alcance de suas forças, passou a significar simplesmente qualquer profissional que cumpre sua obrigação. Se antes heróis eram Alexandre, Napoleão, Churchill, Fernão de Magalhães ou Vasco da Gama, Hernán Cortez ou Pizarro, Amundsen ou Cook, herói hoje é o bombeiro que salva alguém de um incêndio ou um salva-vidas que retira alguém das águas.

No Brasil, andam tão escassos que até animais são promovidos a heróis. Quem não lembra da Catita, a cadelinha que defendeu uma criança atacada por dois pitbulls? “Heroína!” – berraram as manchetes. O episódio foi emblemático. Catita, mãe de vários cachorrinhos, arriscava a vida em defesa de um filhote alheio. O velho mito da Madonna, desta vez em versão canina, tão utilizado pelos jornalistas para comover leitores. Mais ainda: Catita era uma cadela plebéia, vira-lata latina e nativa. Os agressores eram cães de elite, alienígenas e com sotaque anglo-saxão. A finada luta de classes ressuscitava e se manifestava mesmo entre caninos. Em falta de heróis, vai cadela mesmo.

Outra palavra que a televisão desvalorizou brutalmente foi humorismo. Humor, gênero de longa tradição literária, virou sinônimo de piada barata. De preferência, ao alcance da mente de uma criança.

Semana passada, por exemplo, a imprensa toda celebrou a morte de um “humorista”. Em verdade, o defunto não passava de um piadista vulgar.
– Enviado por Janer @ 9:20 PM

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