BENTO XVI LEGITIMA DITADURA CASTRISTA

(Janer Cristaldo -)

Não pretendia voltar ao assunto. Mas leitores me chamam a opinar sobre a viagem do vice-Deus a Cuba. Nem tanto sobre a viagem, mas sobre os ternos olhares trocados por Ratzinger e Fidel Castro. Cá entre nós, nada vejo de anormal. João Paulo II também já trocou afagos com o tirano. É curioso constatar que quando um Fernando Henrique ou um Lula abraçam Castro, um alarido de católicos indignados se arma na mídia. Quando um papa abraça o mais antigo ditador do planeta, o silêncio é de ouro nas hostes de Roma. Mas isso de abraçar tiranos é rotina entre potestades. Diplomacia oblige. E o Bento deve estar de olho no rebanho da ilha, já exausto de comunismo e santeria.
Ratzinger fez um chamado aos cubanos para renovar a fé e construir uma nova sociedade mais justa e aberta com a ajuda da Igreja Católica, depois de cinco décadas de socialismo. Até aí, nada inconveniente ao regime. Suplicou à Virgem pelos prisioneiros, tendo o cuidado de não falar em prisioneiros políticos. Já que foi recebido por Raul e encontrou-se com Fidel, melhor faria se suplicasse a estes pela abertura das prisões. Em vez disso, papagueou como uma Dilma, Tarso ou Luciana Genro, ao condenar o embargo financeiro feito pelos Estados Unidos, que chamou de “medidas econômicas restritivas, impostas fora do país, um fardo injusto para este povo”.
É um homem de extraordinária coragem intelectual. Em Havana, não disse uma palavrinha contra a ditadura dos Castros. Preferiu, destemidamente, xingar o governo americano. O serviço de informações do Vaticano deve estar com seus arquivos desatualizados desde décadas. Que embargo é esse, no qual a colônia de cubanos de Miami sustenta com seus salários os parentes que não conseguiram fugir da ilha? Isso sem falar que empresários do Ocidente todo há muito estão investindo em turismo e hotelaria na Disneylândia das Esquerdas.
Não vi, nos jornais que costumo ler, nenhum comentário sobre a pontifícia covardia. Em fotos que inundaram as primeiras páginas, vemos Bento apertando carinhosamente as mãos do assassino e torturador, ou falando na Praça da Revolução, com a efígie do celerado argentino Che Guevara ao fundo. Enfim, apertar as mãos de um torturador é café pequeno para o representante de uma Igreja que fez da tortura um método de apostolado e teve torturadores sentados na cadeira de Pedro.
Era uma bela tarde do ano da graça de 1385. Esta é uma história que gosto de contar e recontar, já que ninguém a conta. Sua Santidade o papa Urbano VI passeava inquieto pelos jardins do castelo de Nocera, na Itália. Por mais que aguçasse os ouvidos, não ouvia a música que gostaria de ouvir. Naquele ano, seis cardeais foram acusados de conspirar contra Sua Santidade. Que, incontinenti, os jogou numa cisterna do castelo em que habitava. A cisterna era tão estreita que o cardeal di Sangro, grande e corpulento, não podia nem mesmo se espichar. Foram aplicados a estes infortunados todos os métodos postos em honra pela Inquisição.
Quando se tratou do cardeal de Veneza, Sua Santidade confiou o trabalho sujo a um antigo pirata, que ele havia nomeado prior da Ordem de São João, na Sicília, com a ordem de aplicar a tortura à vítima até que o papa ouvisse seus berros. O suplício durou desde a manhã até a hora da janta. Durante este tempo, Sua Santidade passeava no jardim, sobre a janela da câmara de tortura, lendo seu breviário em alta voz, de maneira que o som de sua voz lembrasse ao executor as ordens que ele lhe havia dado. Mas foi em vão que o pirata apelou aos recursos da polé e do cavalete. Embora a vítima fosse idosa e enferma, só foi possível extrair dela um único grito: “Cristo sofreu por nós”.
Isso sem falar na história de Formoso, papa desde 891 até sua morte em 896. Seu sucessor Estevão VI trouxe à tona o juízo de sua proclamação. Estevão acusava seu predecessor de haver ocupado o trono de Pedro ilegitimamente. Como Formoso havia falecido nove meses antes, foi preciso exumá-lo para que estivesse presente no processo que o condenou. Seu juízo póstumo passou a ser conhecido como o Concílio do Cadáver. Como Formoso não conseguiu negar as acusações, foi condenado. Cortaram-lhe os três dedos que havia usado em vida para bendizer e seus restos foram lançados ao Tibre.
Isso sem falar em Sérgio III, que inaugurou o período chamado pelos historiadores de pornocracia, como também de “reinado das prostitutas”. Ou em Alexandre VI, amante de sua filha, Lucrécia Bórgia, que por sua vez era também amante de seu irmão, o cardeal César Bórgia. Alexandre VI organizou no Vaticano famoso baile das castanhas, em que sessenta prostitutas nuas dançaram para os cardeais no Vaticano. Foram jogadas castanhas ao chão, e as bailarinas tinham de apanhá-las. Mas não com as mãos.
Mas não precisamos ir tão longe no tempo para encontrar papas cujos feitos aviltam qualquer doutrina. Em dezembro de 2009, Bento XVI nomeou Pio XII “venerável”, o que abre caminho para beatificação e possível canonização. Pio XII é o papa que foi conivente com o nazismo. Velha tradição de uma Igreja que teve seu território, o Vaticano, doado por Mussolini.
Que faz um papa? – quis saber Fidel em seu encontro com Bento. Ora, comandante, os papas não mais ordenam torturas nem organizam bailes memoráveis. Um papa, hoje, faz política, proselitismo e apelos pelo paz.
Serve também para legitimar junto às nações do Ocidente o mais antigo ditador da América Latina e a mais longeva ditadura do mundo.

– Enviado por Janer @ 1:51 AM

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