SURPREENDENTES VIAS DE TRANSMISSÃO DA CULTURA

por Janer Cristaldo

– O leitor Paulo Roberto Truchlaeff comenta crônica em que falei sobre censura às redações no vestibular:

Prezado Janer
“Segundo ela, a orientação da banca é para que se dê nota zero a um texto que defenda que o dever das mulheres é cuidar da casa.”
A atitude desse pessoal “progressista” é além de tudo incoerente. O multiculturalismo que eles professam pressupõe a tolerância com relação a outras culturas, outros valores e outros modos de pensar. Porém, ao mesmo tempo, pretendem policiar as opiniões e impor suas idéias, evidenciando sua intolerância e totalitarismo. Mas, o que ocorreria se fosse um muçulmano que escrevesse na prova que o dever das mulheres é cuidar da casa? A banca daria nota zero ou iria respeitar as “diferenças culturais”?

Bom, aí passava, Paulo. É preciso respeitar as diferenças culturais. Mais um pouco e teremos vestibular para cristãos e vestibular para muçulmanos. Não se pode ferir as sensibilidades do Islã. Defender que o dever das mulheres é cuidar de casa fere os direitos femininos. No Ocidente. Lá nas Arábias, fere o direito dos machos. Mulher só deixa a cozinha quando é para protestar contra o governo, em algum desses simulacros de revolução, que a imprensa convencionou chamar de primaveras. Terminado o levante, que volte à cozinha para fazer cuscuz.
Da mesma forma, o matrimônio. Você até pode achar que poligamia é um crime contra o direito à igualdade das mulheres. No Ocidente. No Islã, é modus vivendi. Se um aluno escrever em uma redação que adoraria ter quatro mulheres, zero nele. É um vulgar machista. Se um muçulmano escrever que adora suas quatro mulheres, dez pra redação dele. Está apenas manifestando as benesses que Alá concede aos crentes.
Nas mulheres, dizia Pitigrilli, as culturas se transmitem via uretral. Nas mulheres de esquerda, diria eu. Conheço mulheres de fibra que não cedem ao que pensa um eventual parceiro. O problema das moças de esquerda é que, uma vez morto o comunismo, suas fés se reduziram a um difuso anti-americanismo. Foi o que restou da ideologia morta no século passado. O Islã é contra os Estados Unidos? Então o Islã é bom, digno e justo. O inimigo de meu inimigo é meu amigo. Os conflitos do Islã recém começam a manifestar-se no Brasil. Eu os conheço por ter vivido na França. Já em março de 1979, quando sequer se falava no assunto no Brasil, na Folha da Manhã de Porto Alegre, eu escrevia crônica intitulada “Islã preocupa franceses”. A preocupação vai por minha conta, pois, se bem me lembro, naqueles dias os franceses ainda não tinham visto o que escondia o ovo da serpente.
Era uma época em que as militantes do PC, em um misto de tesão pelo exótico e solidariedade aos oprimidos, elegiam os árabes como parceiros de cama. Era fórmula infalível para humilhar um pai conservador. E soava como grito de independência para as francesinhas que, alguns anos depois, tinham de lutar nos consulados pela guarda dos filhos. Observei isto também na Suécia, onde as adoráveis louras nórdicas se embeveciam com os africanos. Hoje a Suécia é campeã em estupros, logo abaixo do Lesotho, na África do Sul.
Aceito o homem, a ideologia vinha de cambulhada. Daí a converter-se ao Islã era um só um passo. A nova crença, o novo modo de vida, os novos rituais constituíam uma espécie de turismo intelectual pelo anecúmeno. Na época, começava a falar-se em multiculturalismo. Que, em outras palavras, significava aceitar como perfeitamente legais práticas que constituíam crime na França, como a poligamia e a excisão do clitóris.
Se ainda não se fala no Brasil do direito de os muçulmanos cortarem o clitóris de suas filhas, os leitores não perdem por esperar. Os cabeças-de-toalha recém estão testando suas forças no país. Começaram exigindo véus em carteiras de motorista. Se colar, colou. A castração das mulheres fica para mais adiante. Que ninguém se surpreenda se milhares de brasileiras defenderem a mutilação. Se hoje há quem defenda o assassinato de criancinhas só porque é tradição de tribos de bárbaros, defender o corte de um orgãozinho é café pequeno.
Conheço não poucas mulheres que se pretendiam independentes e, após dormir com um árabe, passaram a defender o obscurantismo. Ao preço mesmo da evidência. Há uns cinco anos, tive uma discussão com uma convertida ao Islã. A moça negava terminantemente que o Islã tivesse se expandido a fio de espada, que Maomé fosse um guerreiro e que tivesse deflorado sua 11ª mulher, Aischa, aos nove anos de idade. Ora, moça – respondi – não tenho intenção de demovê-la de sua fé. Só acho um pouco difícil negar fatos históricos. Ela os negava, com a segurança dos crentes.
Até mesmo feministas ferrenhas se dobraram à filosofia dos brutos. No início deste ano, comentei a conversão à barbárie de Germaine Greer, a escritora e ativista australiana autora de A Mulher Eunuco (1970), no qual descrevia ligações sobre o relacionamento sexual entre homens e mulheres e a dominação sexual. Greer reivindicava a liberdade. Considerava que as mulheres são “o verdadeiro proletariado, a maioria verdadeiramente oprimida” e que a “revolução só pode ficar mais perto com a retirada do apoio delas ao sistema capitalista”. Para a autora, a mulher era “o verdadeiro eunuco” da humanidade.
A mulher ocidental, é claro, esta mulher que pode ter propriedades, que pode ser presidente, ministra ou deputada, que tem o direito de escolher seu parceiro, que pode inclusive dar-se ao luxo de não escolher nenhum, que trabalha e faz o que bem entende com seu salário. Quando se trata da mulher africana, Greer tem outro discurso.
Para a feminista australiana, a mutilação genital das meninas deve ser restituída a seu contexto. Tentar impedi-la constituiria uma agressão de identidade cultural.
“As mulheres africanas que praticam a mutilação genital o fazem, primeiro e antes de tudo, porque elas julgam o resultado mais atraente. A jovem que fica deitada sem reclamar quando o excisor lhe corta o clitóris com duas pedras demonstra com isso que ela será uma boa esposa, que saberá mostrar-se à altura de todas as angústias da gravidez e das necessidades cotidianas. (…) As mulheres ocidentais, ornadas com o verniz de suas unhas (incompatível com o trabalho manual), com seus sapatos de salto alto (desastrosos para a postura e para as costas, e completamente inadaptados a longas marchas por caminhos difíceis), e com seus sutiãs, denunciam a circuncisão feminina sem suspeitar um segundo de todo o absurdo de seu comportamento.”
Quem te viu e quem te vê! Para começar, a autora emprega um sutil eufemismo para denominar uma mutilação brutal: fala em circuncisão feminina. Continuando, como se verniz, saltos altos e sutiãs fossem torturas comparáveis à excisão do clitóris que, conseqüências fisiológicas à parte, incapacita a mulher para o prazer sexual. E como se a mulher ocidental fosse obrigada a usar verniz, saltos altos e sutiãs, sob pena de banimento da sociedade onde vive.
Não estamos longe, meu caro Paulo, do dia em que afirmar numa redação que matar crianças ou extirpar clitóris constituí crime será motivo para um redondo e solene zero. Nas esquerdas, as culturas se transmitem por insuspeitas vias.

– Enviado por Janer @ 8:18 PM

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