Monitoramento socialista blindou protestos no Recife

Blog do Jamildo – Por Jamildo Melo

 

O governador Eduardo Campos (PSB) teve absoluto sucesso em isolar o Recife do cenário visto durante as últimas duas semanas, quando o Brasil virou palco de inúmeros protestos, que começaram com o “Movimento Passe Livre” em São Paulo. De quebra, protegeu com êxito também a vitrine do PSB no Nordeste, a Prefeitura da Cidade do Recife, comandada hoje por Geraldo Julio. Não se torce aqui para que tenha acontecido alguma bagunça ou vandalismo na cidade. São apenas constatações, embora quem tenha tomado parte do protesto tenha saído com a impressão de que participou de um dia histórico, quase uma revolução.

O entusiasmo governamental foi tanto com o sucesso da operação que a Secretaria de Defesa Social (SDS) e o Palácio do Campo das Princesas chegaram a inflar, para 100 mil, o número de manifestantes, como se o Recife pudesse se destacar em calmaria no meio de tanta agitação no Brasil, mais um feito de Eduardo.

Com tempo para planejar as ações, da PM e não apenas do aparato policial, o governador Eduardo Campos transformou o protesto do Recife em quase um desfile cívico. Não faltou estudantes sendo dispensados de suas escolas mais cedo.

Não havia grito de ordem, não se via nada politizado. É como se as pessoas tivessem dito assim, tá na moda eu vou. Houve quem falasse de uma espécie de carnaval fora de época, em alguns momentos.

É verdade que teve um cartaz aqui e ali contra a sua imagem pessoal, mas nada que não possa ser depositado na conta da democracia.

O governador socialista também foi ajudado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Numa decisão da véspera, o órgão determinou (recomendou, na verdade) que os motoristas, mesmo aderindo ao protesto, teriam que recolher os ônibus às garagens, sob pena de, sob dissídio, serem demitidos por justa causa. A Oposição Rodoviária, ligada ao PSOL, que busca derrubar o atual presidente dos rodoviários, Patrício Magalhães, nem se queimou com a juventude porque vendeu a história como uma contribuição à paralisação geral da cidade.

Sem ônibus na rua, não haveria engarrafamento nem combustível para queimar. Desapareceu o objeto da ira, inicial. A decisão também acabou beneficiando os empresários do setor, sempre tratados como diabos facistas, pois não tiveram problemas com vandalismo de suas lucrativas carroças. Quebradeira, zero, portanto. Nem chance houve.

Empresas liberaram funcionários mais cedo, ajudando a esvaziar a pressão sobre as artérias da cidade.

O Tribunal de Justiça do Estado (TJPE) e a Assembleia Legislativa do Estado (Alepe), ambos poderes aliados do socialista, fizeram o mesmo, fechando as portas mais cedo. Aqui, acho que o medo de quebra-quebra também contribuiu para o meio-feriado. A Câmara Municipal do Recife montou sua barricada preventiva, o esgotamento do sistema representativo, propagado nacionalmente, pelo menos por aqui está mais asegurado do que nunca. Sem violência, sem violência, como ressaltavam os manifestantes.

Os jornais também fizeram a sua parte pedindo paz nos protestos. Lembrei de tropa de elite, com a figura dos riquinhos com consciência social fazendo suas passeatas.

Por fim, o governador Eduardo Campos acabou sendo beneficiado pela localização da Arena Pernambuco, que ele mesmo escolheu mandar para São Lourenço da Mata. Nestes dias conturbados, a distância virou uma vantagem comparativa. Não se viu aqui, assim, as cenas de violência que ocorreu no Castelão, no Ceará, justamente porque o campo não fica no meio da cidade. E pensar que algumas pessoas chegaram a reclamar que o estádio era longe e de difícil acesso.

O que restou? Conhecida por seus baixos níveis de envolvimento político, nossa classe média acabou tendo sua raiva catalisada para o governo Federal, contra a corrupção, contra os impostos elevados, em comparação com a baixa entrega de serviços. Venda quem quiser a ideia de que assistimos uma mobilização popular orgânica, mas eu não compro.

Como um governo com tão altos índices de aprovação chega a ser um palco de tais acontecimentos; como um país que mostra o mais alto crescimento da renda e as menores taxas de desemprego dos últimos 20 anos, ao mesmo tempo que reduz seus historicamente elevados índices de desigualdade se tornou o cenário de manifestações massivas e genéricas. A resposta é simples. Dilma e o PT não podem tudo, nem são imbatíveis como disse Marina, no começo do ano.

De resto, o que está acontecendo no Brasil? Não falta olhar de superfície sobre o tal gigante desperto. Vamos ver como se comporta essa juventude com o próximo escândalo. Só podemos torcer.

É o retrato deste dia, pelo menos.

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