Brasil, o país que fracassou

Brasil, o país que fracassou.

-(por Léo Rossatto)

– Se você é otimista ou está aqui só por motivação política (criticar ou defender governo X ou Y), nem perca seu tempo com esse texto. Provavelmente você vai achar que é “chorume”, afinal chamar algo de “chorume” é uma espécie de Lei de Godwin das redes sociais: serve pra designar muita coisa ruim, mas também é uma forma de encerrar discussões que incomodam sem dar margem para argumentações.

Em resumo: o Brasil é um país que fracassou. Fracassou por diversos motivos, e cada pequena atitude de qualquer ator político só me fazem ter certeza de que o país é um completo fracasso. E não por causa de um ou outro governo, mas por causa de todos os governos que passaram por aqui durante a história, alguns mais, outros menos.

Então convém enumerar os motivos:

1) O Brasil não tem uma identidade nacional e não existe um projeto de país.

Você pode achar o contrário, especialmente em épocas de ufanismo coletivo, como em Copas do Mundo. Mas o Brasil não tem nenhuma identidade nacional e a necessidade do ufanismo coletivo em momentos específicos é um sintoma emblemático disso.

Quem é o brasileiro hoje? O homem cordial, de Sérgio Buarque de Hollanda? A imagem que se vende para o exterior do estereótipo de brasileiro que é o mesmo desde Carmen Miranda e Zé Carioca? O brasileiro não é nada disso. Mesmo porque não há um tipo de brasileiro. Existem vários Brasis dentro do país. O Brasil vive de políticas top-down (feitas de cima pra baixo) desde a época da colonização. E não há sinais de mudanças reais, nem mesmo com as várias manifestações que pararam o país no mês de junho.

Quando o país se tornou independente, o imperador daqui acabou sendo o filho do Rei de Portugal. Que, além de declarar uma independência combatida de forma indolente, conseguiu “manter o país unido”. Você consegue imaginar isso acontecendo em outro país? Em qualquer um deles? Independência é necessariamente um rompimento com a colônia, definitivo, sem volta. Nem mesmo as colônias espanholas, que tiveram o mesmo modelo de colonização daqui, tiveram algo parecido.

Desde essa época, tudo começou a ser resolvido na base dos panos quentes, do jeitinho, dos acordos de fachada (para saber mais sobre jeitinho brasileiro, leia aqui). Foram sufocados alguns movimentos de independência, pois as identidades regionais sempre se sobrepujaram às identidades nacionais por aqui. E o problema não foi resolvido. Empurra-se com a barriga até hoje. Não há um projeto de país unificado. Não apenas pela questão das regionalidades (explícita em casos como o dos royalties do pré-sal), mas também porque nossos políticos tem a maturidade de alunos da 5ª série, sendo absolutamente incapazes de formular projetos conjuntos e de longo prazo. O pensamento é apenas na próxima eleição.

2) O Brasil empurra tudo com a barriga, toda solução é paliativa

O Brasil é um fracasso como país porque não sabe resolver seus problemas: apenas empurra-os. Toda solução é paliativa, pensando, no máximo, no próximo ciclo eleitoral. Aliás, tudo o que os políticos fazem não é pensando no futuro do país, mas no seu futuro pessoal na política.

Há problemas no transporte público revoltando a população? Formula-se uma resposta rápida e paliativa, não importando os efeitos dela a longo prazo. Enquanto isso, os que ganham às custas do Estado com as concessões de transporte público não perdem um centavo de seus ganhos.

Há problemas na saúde pública? Contrata-se médicos de fora, obriga-se os formandos a atuar na rede pública. Todas elas soluções paliativas, que não mexem com quem mais explora a saúde, prejudicando governos e médicos: os convênios, que recebem bilhões de reais anualmente dos cofres públicos.

Há problemas na educação: adotam-se soluções paliativas: vagas pagas pelo governo em escolas privadas, financiamento estudantil. E os donos de grandes corporações particulares, que contam com mais de 700 mil alunos cada, pagando por um nível deplorável de ensino, recebem incentivos governamentais para continuar inflando estatísticas na educação.

O que convênios médicos, empresas de transportes e  donos de faculdades particulares tem em comum? Todos eles, invariavelmente, GANHAM com a precarização do serviço público. Quanto mais o serviço público estiver ruim, mais eles lucrarão. As empresas de transporte público, por investirem menos. Os convênios e escolas, por prestarem um serviço muito ruim e ainda serem vistos pela sociedade como algo “melhor” que o serviço público.

E isso tudo por que? Porque o Brasil, como “país”, sempre foi dividido.

3) O Brasil sempre teve desigualdades sociais. Mas a elite econômica só pensa em si mesma

Não pense que as desigualdades sociais no Brasil vieram de hoje. Estão aqui desde a colonização, com o modelo de latifúndios baseados no trabalho escravo. A dualidade entre a parcela favorecida e a desfavorecida da sociedade brasileira adquire contornos dramáticos, a ponto de nossas principais cidades serem quase todas segregadas, com cinturões de pobreza cercando áreas ricas e contribuindo para problemas que vão desde a mobilidade urbana até a violência nas periferias.

Só que nossa elite aprendeu, como poucas no mundo, a se eternizar no poder. Quando não elegendo presidentes diretamente, através de lobbies e da associação com a elite estrangeira. São os casos de setores diversos da economia: empreiteiras, montadoras, bancos, convênios médicos, setor de edução, mídia, agronegócio, e outros diversos pedaços da economia que contam com forte influência junto ao Legislativo e aos Ministérios para fazer valer suas vontades. E esses setores não estão nem aí para a população em geral. O máximo que eles vêem é o povo como “mercado consumidor”. E, como um mercado consumidor que merece os piores produtos possíveis aos  maiores preços possíveis.

Esse grupo não é empreendedor, porque acha que novos personagens no mercado vão escancarar a incompetência desses donos do poder. Esse grupo tenta burlar a lei e se favorecer das benesses do Estado em todo momento. Esse é um dos grandes motivos de termos um quadro de políticos repletos de privilégios, propensos à corrupção e que se aproveitam do Estado. Mas, antes de tudo, é necessário entender que esses grupos refletem o caráter de boa parte do povo brasileiro, e isso é a certeza de nosso fracasso como país.

Conclusão: o Brasil, um fracasso

Quando você pergunta para alguém “o que você faria na política?”, a maior parte das respostas tem a ver com os benefícios individuais. “Ficar rico”, “roubar quanto der”, “fazer o pé de meia”, todas essas respostas são muito comuns. O brasileiro médio tem a visão deturpada de que o Estado existe não para você ZELAR por ele, mas para você SE APROVEITAR dele. E quando o brasileiro médio se escandaliza com o deputado que anda em jato da FAB para fins particulares, não é porque ele tem um padrão moral elevado e gostaria de um país mais justo: é porque ele gostaria de estar no lugar do deputado.

O Brasil é um fracasso porque o brasileiro nasceu, se criou e cresceu como um sujeito individualista. Mas não como um sujeito individualista empreendedor, e sim como um sujeito individualista aproveitador, que usa jeitinhos para favorecer os amigos, que usa a lei para barrar os inimigos, que compete sem limites para se colocar em uma posição social privilegiada. O Brasil é o país dos opressores, mas também é o país dos oprimidos que querem melhorar sua condição social apenas para que possam oprimir alguém.

Querem provas disso? Não há um modelo de filantropia razoável por aqui, uma cultura de doações. Existem FRAUDES em casas filantrópicas aqui, apenas porque essas casas filantrópicas recebem isenção de impostos. As pessoas boas são minoria, infelizmente.

Não somos sequer uma República Federativa, como nosso nome fala. Não há de fato autonomia aos Estados. Temos um tradição de governos centralizadores, que só refletem o individualismo histórico do brasileiro. E mudar governos não adianta: toda a estrutura de poder está corrompida por pessoas que querem levar vantagens enquanto uma minoria tenta fazer coisas boas e não tem poder para tal.

Não há reformas estruturais. Não se combate o interesse daqueles que se beneficiam indevidamente do Estado. Não é de interesse de ninguém mudar o país. Talvez seja de meu interesse. Se você leu o texto até aqui, talvez seja de seu interesse. Mas somos minoria. Não há multidão nas ruas que me faça pensar o contrário. Mesmo porque não investimos para educar essa multidão, e até ela, nas ruas, está militando por seus interesses individuais.

Somos poucos. Vivemos cercados de pessoas individualistas, capazes de fazer qualquer coisa para levar vantagem. Pode ser um fenômeno global? Pode. Pode acontecer só em alguns lugares? Pode. Mas conforme-se: o Brasil é assim. E não somos nós, uma minoria de loucos sonhadores, que vamos mudar isso.

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