Retrato que não muda

Oráculo e Poeta

Sabemos que predissões acontecem desde sempre sobre a face da terra. Alguns oráculos do passado vestiam roupagens que traduziam o futuro ; previram nas linhas e entrelinhas – inclusive – o destino político de nações outras que não a deles.

Abílio Manuel Guerra Junqueira, político, jornalista, escritor e poeta panfletário português, escreveu um belo texto em 1896, para criticar a conjuntura de seu país. Não sabia ele que seu pensamento ecoaria tal qual um Big-Bang na pátria tupiniquim, filha ingrata de Portugal, no além-mar, desde quando a “República” foi instalada…

O texto levitou por mais de um Século até pousar no Blog do Alerta Total (www.alertatotal.net) sendo publicado na edição 11de maio de 2014:

Retrato que não Muda

Imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. 

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.

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