SOBRE A GIOCONDA E O BELO
por Janer Cristaldo

Leio no Estadão reportagem de Juliana Faria:

“Uma pesquisa britânica mostrou no mês passado que, se você apresentar para o público frases de uma revista masculina e depoimentos de estupradores, ninguém consegue perceber a diferença. Agora, ganhamos mais um exemplo dessa afinidade. Uma revista brasileira voltada para homens lançou uma campanha publicitária chamada Manifesto pelo Homem Livre, baseada em pesquisa de agência que encontrou uma tal “masculinidade sufocada” entre eles. Nunca explicou direito o que é que está, de fato, sufocando os pobres coitados, mas já inspirou bandeiras como “sim, adoramos ver uma bela bunda passar” e “como casamento dá trabalho, deveríamos receber um mês de férias por ano”.

Não imagino qual seja a revista brasileira. Mas nada tenho contra a primeira bandeira. Quanto à segunda, casamento só dá trabalho se o fulano escolheu a pessoa errada. Se escolheu a certa, é paraíso o ano todo. Voltemos à bunda que passa.”

A linha preferencial do universo é a curva, dizia Ney Messias. Curvos são os planetas, curvas são suas órbitas e curvas são as elipses dos meteoros e cometas. Impossível imaginar uma órbita quadrada. A cada quebra de ângulo, o solavanco jogaria no espaço boa parte do planeta.

Prefiro mil vezes a contemplação de um traseiro vem torneado que aquele sorriso muito sem graça da Gioconda, venerado por milhões de turistas, sei lá por quê, afinal da Vinci tem obras bem mais interessantes. Sem falar que para contemplar a moça é preciso pagar. A contemplação dos glúteos é gratuita.

Quando são belos, soltos, sorridentes, eu me viro sim. Mas jamais com olhar lascivo, e sim com o pasmo de quem contempla uma bela obra da natureza. Jamais dirigi qualquer piropo à transeunte alguma nessas ocasiões, soa agressivo. Contemplo e reservo meu deleite para mim mesmo, sem que a moça que me encantou sequer fique sabendo. Mas não resisto à beleza de um rosto, quando é abusiva. Há algum tempo, no café da esquina, vi uma mulher belíssima numa mesa, asiática por seus pômulos, uma boca de Angela Jolie. Não resisti. Sem nenhuma segunda intenção, ao sair aproximei-me dela: permita-me uma observação, você é linda.

Ela ganhou seu dia e eu o meu.

Ainda há pouco, uma dessas belas desfilava sua beleza em minha rua. Dois velhotes judeus, de quipá, vinham em sentido oposto. Disseram algo. Não sei o que foi, mas deve ter sido muito elegante. A moça derreteu-se em um sorriso largo, aprumou-se e caprichou ainda mais no movimento das ancas, em um gentil bônus aos filhos de Davi.

Há um bistrô em São Paulo, do qual temos uma visão do futuro. É a Mercearia do Francês, com vista para o cemitério da Consolação. Não que seja o meu futuro, pois não pretendo legar minha carcaça aos vermes. Mas gosto de cemitérios, transmitem paz. É um dos motivos que me levam ao bar.

Há alguns deparei-me na Mercearia com outro desses portentos. Tinha um sorriso divino e conversava com uma amiga. Também não resisti. Pedi para sentar-me, confessei meu fascínio por seu sorriso e já começava a levantar-me quando ela encetou um diálogo. Interrogou-me, queria saber de minha vida, e fiz um desses resumos rápidos e abrangentes, como os que fazemos quando conversamos com algum passageiro de trem e avião. A vida inteira em poucas palavras. Foi a vez dela começar a encantar-se, para desconforto da amiga. Passei-lhe meu cartão e, desta vez, realmente me interessei por ver por mais vezes aquele sorriso. Mas não tive retorno. Pelo jeito, a virago ao lado vetou-lhe qualquer contato.

Em Paris, há muitos anos, tropecei com um desses prodígios, no Café de L’Odeon. Além de ser linda, portava um chapéu todo de flores, que evocava os jardins suspensos da Babilônia. Vous êtes belle – disse. Ela assentiu com um gesto mudo e a certeza de que eu tinha toda razão. Pedi para tirar uma foto. Era o que ela queria. Estava ali para ser bela, ser contemplada naquela esquina do mundo. Soit belle et tais-toi, dizem os franceses. Era o que ela fazia. Era bela e não disse palavra. Sorriu feliz e o jardim todo que encimava sua cabeça balouçou em agradecimento.

A última vez foi em um de meus restaurantes diletos, a uma quadra de onde habito. Era alta e forte, toda cheia onde devia e sua presença, que anulava a de suas amigas, estava sensivelmente perturbando o ambiente. Não havia olho que desgrudasse da moça, esperando sua saída para ver o conjunto da obra. Ela então saiu. Se o Stalone não fosse um bofe, diria que era o Stalone versão feminina. O bar silenciou. Altaneira, desfilou pelo corredor entre as mesas, ciente das razões do silêncio. Confesso que não consegui decidir se era mais linda quando vinha ou quando ia.

Volto à parte inicial. Há quem goste de traseiros volumosos. São pessoas que estão longe de descobrir o bem-bom. A bunda não é uma enteléquia solta no espaço. Exige entorno. No caso, a cintura. Pode ser diminuta. Se a cintura afinar, se opera o milagre da atração. Por que razões, não sei. Há quem diga que tal conformação é garantia de uma robusta maternidade, e isso garante a prole do macho. Li inclusive um cálculo matemático sobre as proporções áureas entre cintura e bunda. Esqueci os números. Tanto faz. Jamais me ocorreria pegar uma fita métrica e medir a moça para ver se era o que mais gosto. Meu metro é meu olhar.

De minha parte, estou liberto desse condicionante biológico. Nunca quis filho, muito menos prole. Mas, seja de experiência própria, seja do relato de amigos amantes do bom esporte, intuo que a cintura é complemento do qual depende a beleza dos glúteos. Don Giovani, mais eclético, não fazia muita distinção a estes detalhes.

Vuol d’inverno la grassotta,
vuol d’estate la magrotta;
è la grande maestosa,
la piccina è ognor vezzosa …

Delle vecchie fa conquista
per piacer di porle in lista;
ma passion predominante
è la giovin principiante.

Noti si picca se sia ricca,
se sia brutta, se sia bella;
purché porti la gonnella,
voi sapete quel che fa!

Quando jovem, gostava das grassotas e das grandes maestosas. A idade refina o palato. Nos últimos anos, minhas diletas foram as piccinas.

Fugi ao tema. Em suma, não vejo nada de machismo em contemplar um belo traseiro. A beleza existe para ser contemplada. Mil vezes mais prazeroso uma bundinha empinada que aquele sorriso idiota da Gioconda no Louvre.

– Enviado por Janer @ 9:45 PM

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