A mulher encantada

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Naquele dia as manchetes dos jornais estampados nas bancas fugiam do trivial. Não falavam sobre política, tampouco sobre a violência que assolava o país, muito menos grafavam sensacionalismos baratos.

O fim da tarde modorrenta combinava com as manchetes dos diários. Denotava que as notícias chocantes, quentes e gritantes, pediram trégua aos jornalistas; descambava num horizonte de calmaria e tipificava ou prenunciava o inicio de um verão aprazível e ameno. 

Na área humanizada do centro da cidade o movimento das pessoas no calçadão era intenso; gente bem vestida com estilo, gente maltrapilha, gente nem carne nem peixe. Um verdadeiro formigueiro adirecionado entre as plantas e os ornamentos daquele logradouro. 

Libertando a sua imaginação uma criança brincava. Saltitava como um pássaro das muretas dos canteiros bem cuidados, para os ladrilhos que davam piso em preto e branco, formando figuras interpretativas tipificadas caleidoscopiamente. No meio delas ilhotas rasteiras telhadas de verde assombradas por arbustos e algumas palmeiras conferiam ares bucólicos ao ambiente. 

Tinha uma banca de jornal num canto esquinado. Parada defronte dela, uma distinta figura feminina qual uma Vênus platinada trajada elegantemente, perscrutava uma vitrine. 

No quiosque um homem folheava uma revista ou um jornal. De vez em quando levantava a vista da leitura e observava a movimentação ao seu redor. Percebeu a mulher. Instintivamente empertigou e passou uma mão nos lábios. Umedecida, passou-a nos cabelos para assentá-los. 

A fêmea estava visivelmente fascinada pelo leve conjunto que vestia um dos manequins. Despreocupada do tempo, não percebe que é observada e como afirmação do desejo provocado ante a vitrinesca visão, entra na loja. 

O voyeur sem dissimular o súbito interesse despertado pela imponência e sensualidade da mulher, segue-lhe os passos. A magia do encantamento feminino, proporcionada pelo andar rebolador, instigante e impositivo das belas e arredondadas ancas, é convite irrecusável. Mas algo vibrou interiormente em seu instinto e refreou-lhe os passos no umbral da loja. 

O macho, um elegante empavonado transfigurado de ruão, a enálage, fenece o penacho caudal e empaca. Mas permanece atento; do portal – seu refúgio -, perscruta-a de través ou soslaio enquanto a Gioconda solicita a atenção da atendente. 

A espera, meio lá fora, meio lá dentro, tornou-se além de desgastante, angustiante. A impaciência provocada pela ânsia de cercá-la, e ao mesmo tempo pelo temor às reações que o ato ousado poderia ocasionar, deixava-o sem atitude. 

Acendeu um cigarro e logrou alguma calma. A ansiedade relaxou, e ele resoluto finalmente venceu o temor de abordá-la. Invade o estabelecimento, e nessa literalidade aproxima-se do balcão e  postando-se ao lado dela quebrou o silencio de forma direta, quase rude: 

Boa tarde senhora. Poderia me ajudar opinando sobre a qualidade e tamanho daquele conjunto de seda – e aponta exatamente para o objeto do desejo da abordada – que pretendo comprar? É para presentear a minha irmã que hoje está fazendo aniversário? 

O brilho do olhar da bela e cinzelada criatura é intenso e marcante. Primeiro recaiu sobre o atrevido; depois sobre a roupa. Então lhe respondeu mais gentilmente do que se esperaria como resposta a uma pergunta infantilizada, de alguém sem a menor sensibilidade, nem senso crítico para tal mister: 

– Boa tarde senhor. Absolutamente, não me incomodará ajudá-lo. Normalmente, quando não há descalabros, até gosto de sugerir em situações amistosas. Não somente orientar, como também perguntar quando nessas coisas de moda, uma situação inusitada se me depara e estabelece conflitos de gosto e estilo. 

– Sou-lhe grato por sua atenção, a minha descabida pergunta. Vejo que além da elegância, e do fino trato, mais ainda, é muito bem educada.

Ela sorriu leve e quase imperceptivelmente. Mas foi o bastante para transmitir-lhe alívio imediato às tensões geradas naquele início de diálogo. Ele gora confiante, incisivo quanto ousado, foi mais além: 

– Chegamos aqui quase ao mesmo tempo. Mas entrei depois. Eu acabara de folhear um jornal ali na banca, no outro lado da rua, e quando me dirigia para cá, avistei-a cruzando a porta de vidro. Pressinto que nossos objetivos aqui na loja têm certa parecença… 

Por uma fração de segundo a abordada franziu o cenho. Ele sentiu o peso do olhar duro que contrastava com sua graciosidade. No entanto, tão logo cessaram os ecos da voz, novamente atrevida, ela se recompôs. Denotava impressionante fair-play: 

– Você estava a me seguir. É isso? 

– Não, não é! Contudo eu reconheço que certas coincidências podem induzir a erros. Apenas a vi andando na minha frente, pareceu-me, repito, com o mesmo propósito de adquirir alguma peça de roupa dessa boutique. 

A expressão facial dela, não escondia o descontentamento pontual da justificativa engendrada, a seu ver, sem muita consistência. Ele novamente tenta apagar o fogo: 

– Se não quer dar crédito às minhas palavras, por favor, vire-se e olhe através da vitrine e comprove que existe a banca de jornal e revistas, de onde eu tinha saído com o intuito de vir comprar o presente para minha irmã.  

Ele complementou a frase com um gesto. Apontou o dedo na direção da testemunha muda. Ela seguindo a trajetória sugerida, comprovou a existência do fato, anuiu que sim, com um gesto de cabeça. Reconfortado, ele continuou: 

– Quando me virei nesta direção, você diminuira as passadas e passou a caminhar lentamente olhando os manequins antes de entrar. Eu não tinha a idéia de qual magazine eu entraria primeiro. Foi o seu gesto determinado que me despertou e aguçou a atenção, a curiosidade, e de certa forma induziu-me a procurar aqui o presente!

Antes que ela se refizesse dos motivos explanados, ele voltou a falar:

– Peço-lhe desculpas por minha impertinência e ponho-me à sua disposição para as reprimendas que por ventura julgar cabíveis. Mas antes quero que saiba de uma coisa: não é de meu feitio agir ou comportar-me dessa forma. Nem eu mesmo entendi o que aconteceu. Nas minhas lembranças não contabilizo outra atitude dessa natureza. Acredite-me. Fui incompreensivamente impulsivo. 

Ele falou de uma forma tão segura, que ela sem perceber, concedeu-lhe o benefício da dúvida: 

– Compreendo que a facilidade que você tem, de jogar com as palavras induz a qualquer mulher de pés no chão a não acreditar nesse elenco de satisfações, fruto de um jogo sem meta, cujo princípio tem como argumento dissimulado, sedução. Não importa de qual tipo e pra quem seja. Se direcionada para mim, para sua irmã, ou para nós duas. No entanto, sou cordata e confesso que galanteios espontâneos e de bom gosto fazem falta. Mas também desperta a minha memória e faz-me relembrar fatos que prefiro deixar no esquecimento. Tudo bem. Aceito sua justificativa; agravos esquecidos. 

Tão logo concluiu seu pensamento, inesperadamente a mulher encerra a conversa: 

– Tenho de ir agora senhor, foi um prazer conhecê-lo. 

Incontinente saiu ligeira sem esperar resposta. 

Ele por uns segundos ficou pasmado e sem ação. Resignado, agradeceu a atenção da atendente, que assim como ele, ficara surpresa com aquele desfecho. Sem nada comprar, saiu em seguida. 

A noite caíra, o calçadão iluminado estava bem mais bonito, o corre-corre continuava e a vida lá fora seguia sua rotina. Bucolicamente uma coisa destoava na paisagem: a mulher havia desaparecido.

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