Once upon a time

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Era uma vez um menino (mais tarde, dito por ele mesmo, nascido de mulher nascida analfabeta) que por atroz herança histórico-genético-cultural, nasceu, cresceu e permanece semi-alfabetizado. Esse menino revelou-se desde cedo um traquinas. Um menino vivaldino. Um menino aloprado. Um menino aproveitador nato de situações pessoas e coisas com a franca aquiescência de tantos que o cercavam. Pois, como vocês estão podres de saber, só briga dois quando os dois querem. Lá na longínqua e sonolenta (como vocês também sabem ― a fome dá sono) cidade de Kaethés dos Encantados, onde nasceu, cidade pequena, porém decente como diziam os que por lá passavam, cidade natal de futuros e famosos retirantes, esse menino tal e qual um singelo corvo amestrado para surrupiar tudo que brilha, buscava migalhas e outras coisas na feira para sobreviver. Essa espécie de peregrinação acaba cedo ou tarde em anseios mais volumosos, em querências mais substanciosas (assim prova a história). Água mole em pedra dura que tanto bate até que fura, assim como, de grão em grão a galinha quer encher o papo. Anos mais tarde, homem feito, candidato a opróbio, após a migração para um grande centro, essa aética flor-cadáver  em forma de quase gente, exalante dos fedores dos mortos putefratos, não  aguentando mais bater pernas frente de fábricas afora para se manter, adentrou o fascinante mundo do sindicalismo onde pouco se trabalha e muito se discursa corrompe e rouba. Local onde a apologia criminosa faz ninho e morada. Lá prosperou. Ele ainda não sabia, mas algo inconscientemente lhe dizia que um futuro coroado, não anda por aí  a pé batendo de porta em porta. Dito e feito. Pela sinecura sindical comprou o seu primeiro fusca com contribuições dos companheiro. Fizera muitos amigos. Ah, se aquele fusca falasse: quantas estripulias. Homéricas bebedeiras, pois nem só de água benta vive um sindicalista. Uma noite sonhou um sonho: Um dia seria coroado pelo povo. Confirmação da sua competência no âmbito sindical, e nas inúmeras empresas em que trabalhara ou fingira trabalhar. Empresas sediadas num país-de-faz-de-conta, onde contra todos os prognósticos, dera certo como bode expiatório, testa de ferro, ou, arregimentador de insatisfações.Numa dessas encruzilhadas da vida que o destino na sua imparcialidade nos defronta, certa noite esse iluminado apeudeta ofuscado pela luz de uma brilhante estrela de resplandecente aura vermelha, deparou-se com uma arrivista cartomante cigana. Oráculo russo, expatriada, diplomada também num sonho, os pés chafurdados em utopias, editora perspicaz de buenas-dichas, chegou a cigana toda enrolada em imperial veludo escarlate e o encantou de cabo-a-rabo com predições quase impossíveis aos de sua baixa classe social e raquítica formação pré-primária, prevendo-lhe importantes missões, respaldo popular e reconhecimento mundial garantindo-lhe competências que só poderiam ser visualizadas mesmo em sonho. Indicou, naquela ocasião, alguns nomes “dentre os seus amigos” para acompanhá-lo na árdua odisséia a que se destinariam, que a passos céleres se aproximava. Amigos que o apoiariam e o seguiriam cegamente na sua vitoriosa escalada rumo ao baixo Olimpo, ao aeroluxo – pois não bastava ser rei. Acalentava agora deísticos poderes. Ele (de certa maneira, inocente útil, porém, ganancioso) acreditou na cigana (e nesse caso: a cigana não o enganou) aceitando as indicações incondicionalmente. Montou um grande circo marambaia; a cada cidade que visitava arrebanhava um número maior de personagens ambicionando ser palhaços, “clowns”, “Carequinhas” e “Arrelias”, senão Ali Babás, Ársenes Lupins e candidatos a assaltantes de trem pagador, nessa imensa terra-do-nunca que é o circo. Só não aceitava na troupe quem não partilhasse dos seus mirabolantes sonhos ou não enxergasse um palmo de decência adiante do nariz. Assim, cercou-se de Delúbios, Dirceus, Gushikens, Genoínos e correlatos. Ainda no caminho, por conta da cegueira de uma cidade inteira (uma epidemia alastrou-se das USPE(s) aos grotões da nação) chegou à deputância. Foi legislador inerte e obscuro, mas o jogral bufão não viu, ou fez que não viu, e a platéia adorou e aplaudiu. Não quis mais essa coisa de legislar. Queria mesmo era mandar. E muito. Na esteira cega, redundante, subiu por três vezes aos palanques como presidenciável e por três vezes foi renegado pela maioria dos eleitores. Porém, uma vez coroado (era assim que se sentia) fomentado por financiamentos vindos do exterior, de sequestros e assaltos a bancos e provindos de obscuras origens, terminou corrompendo de vez as últimas inspirações altruístas do tempo de menino catador de migalhas. Com dinheiro sujo e verborragia inerente à populaça excluída, ascendeu ao Planalto.

A circense corte, com seus ‘clowns’, com seus ‘neo-bobos’ com aspirações “new-riches”, e com seus mágicos que faziam desaparecer dinheiro em pleno ar ou em cuecas, ou em calcinhas, tomou dimensões nunca vistas no Ocidente. Em oito sonambúlicos anos, transformou a república da terra-do-nunca que lhe mostrara a possibilidade de um reinado dos Sem-Escrúpulos, dos Sem-Competências, dos Sem-vergonhas e dos Sem-Qualquer-Decência, em um obscuro covil de ladrões.

O fruto dessa lida nefasta, acumulatória, culminou na aquisição (por uma ninharia, diga-se) de um aerosonho. Aerosonho que em vôos razantes espalhava pelos lodaçais, mangues, paús, movediças, pantanais, charcos, igarapés, arroios e lagunas de uma sonífera nação eternamente deitada em berço esplêndido (o Grande Circo Marambaia), seus anseios de desejos de consumo e terminavam por sufocar as velhas sementes que teimavam nos seus últimos estertores a germinar, na vã tentativa de inócua perpetuação.

 Seu primeiro ministro, um todo poderoso ex-guerrilheiro que teria seus direitos políticos cassados por corrupção ativa e formação de quadrilha, travestido de cores, tornou-se a emininência parda do governo.

Capitalizado pelos desvios de dinheiro que contou com o apoio direto dos responsáveis pelas contas do partido da terra-do-nunca no exterior, a eminência parda por pouco não desmentiu a cigana predissora, tirando a coroa do coroado, e autocoroando-se. (Que rei sou eu?)

O “Marqueteiro Mão de Onça”, posteriormente, réu confesso e o “Cara de Macaco Brasileiro”, mentor e idealizador de um 157 chamado pelo populacho de mensalão (atores teatrais na CPI), fizeram-se presentes.

O Coroado e a súcia palaciana sem juízo de valor, não previram a reação da sociedade conivente com aquela palhaçada, embora habitassem juntos, a mesma lona. O povo erigiu uma paliçada de moralidade, confinando o Grand Circus aos picadeiros e jaulas da Polícia Federal, aos trampolins mambembes da Justiça, e aos trapézios balouçantes e sem redes do Ministério Público. Quanto à dubiedade do gestor de justiça, seu ministro-advogado e defensor de todas as horas, fez o que tinha de fazer. Como o bíblico Mateus, defendeu os seus. O Coroado ainda assim teimou em abusar do poder e extrapolou na figura bisonha de um tal cabeça chata ex-deputado federal genuinamente  cearense então presidente do partido dos palhaços, que sempre negou envolvimento no mensalão e foi o principal avalista dos empréstimos bancários do careca simiesco. A figura genuínica, aquela que posteriormente foi desmascarada quando o irmão “avião-de-cuecas-cearense”, à serviço do partido, foi preso com milhares de dólares descaradamente extravasando dos cueiros em pleno voo com destino a tão sonhada terra  bêrço do escritor criador da virgem dos lábios de mel, figura de vulto, jornalista, político e escritor que nascera a mais de um século quando ainda os homens praticavam as boas vontades, honestamente.

Enquanto isso, a eficiente companhia “Faz de Conta Que Eu Te Telefono E Você Faz De Conta Que Me Escuta”, exploradora da telefonia convencional e celular e que abrangia nove condados da terra-do-nunca ganhou um sócio de peso… morto. Nada mais nada menos que o filho do Coroado e lavador de bosta de animais de zoológico que evoluiria meritosamente a “mico-empresário” e logo a um grande empreendedor. Deu-se muito bem, como asseverou a claque de vermelho, humilhando a decência com o gesto infame de aprovação levantando e baixando a cabeça. Parceria milionária ganhada graciosamente naquela exploradora concessionária de telefonia sem por na sociedade um centavo sequer de sua conta bancária. São Coroado, santo sem tigela, também faz milagres.

 Vai longe o dia em que o coroado Coroado acordou no sonho sonhado. Ante a realidade daquele despertar não quis mais tirar a coroa soldando-a a ferro e fogo no cocuruto achatado. Empunhou o cetro, vestiu. Detém a aprovação popular. Tudo pode. Como já havia feito, partiu para as portas dos grandes conglomerados industriais automobilísticos, pelos grotões desse país, a espalhar as boas novas sonhadas. Escroque labutante, batalhador incessante,  foi tomando gosto e sobraçou várias categorias trabalhadoras também ciosas de um sonho a mais a ser sonhado. Pensou num mandato vitalício. Inchado “etilicamente” pelo sucesso da grandiosa conquista, percebeu que a manutenção do ‘statu quo’ – Coroado não prima pela originalidade semantica quando não pronuncia “status”. É um assassino incontestável do plural. Jamais intuiria ode a lingua inglesa e por extenção, ao imperialismo americano – as regalias palacianas exigiria muito mais do mesmo.  Não em termos de competência e assiduidade trabalhista, porém, de maquinações espúrias, traquinagens à sombra das noites e dos dias,  vilipêndios e coisas e tais, e a ajuda constante, porém, algumas vezes bastante embaraçosas, de aloprados amigos.

(continua)

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