Luiz Fernando Melo


Enquanto a violência humana estava estratificada e contida  nos guetos, morros e favelas, do Rio de Janeiro, além de muito bem tolerada, ajudava o trabalho sujo que as forças policiais “executavam” em seu cotidiano, principalmente, na calada da noite alcançando gente pobre, excluídos de toda sorte, inclusos marginais e aprendizes juvenis do crime. Morticínios desde sempre existiram. Nunca exigiram juízo de valor dos algozes e carrascos, bem menos da sociedade omissa, conivente. A grande imprensa da época, batalhadora nas áreas sociais das rodas elegantes não abria espaço para discussão desse tipo de informação sem que alguma vítima girasse nas grandes rodas da elite dominante. Simplesmente ignorava os pobres, negros, prostitutas e correlatos ou afins. O jogo do bicho no modal prescrito pelo Barão de Dumont veio suprir a lacuna deixada pela proibição dos alvarás de funcionamento dos cassinos, auxiliando aos necessitados com alguma grana extra e forjando subemprego à revelia dos governos em todas as esferas executiva e administrativa. Primeiro na surdina, depois, abertamente!  O filão a ser explorado justificava a ilegalidade regada a hipocrisia e imoralidade. A alta sociedade por osmose, diretamente gerou a necessidade da intermediação das drogas proibidas, deixando para as hordas dos morros e guetos adjacentes, a busca, compra, manipulação e refino, armazenamento venda e distribuição  itinerante e/ou pontual. A polícia sub-reptícia (sua parte corrupta) viu que agindo só no combate tenaz e eficaz em nome da ordem e da lei, não ganharia nada além de elogios por absoluta atuação em prol da sociedade. Divisada a possibilidade de agir integrada aos neo-delinquentes, a estes aliou-se. Mas os entregadores das drogas a domicílio ao sair das fronteiras redutos do tráfico, nas ruas tiveram o dissabor de constatar que a proteção dos policiais civis se restringiam as áreas sob o controle direto dos chefes das drogas. Acordos começaram a ser tecidos entre as forças policiais distintas: civil e militar. Esta última mais tarde viria permitir dissidências que terminariam por aparelhar milícias e redes de informantes que,  organizadas, partiram para a constituição extra-oficial do “Estado Brasil Paralelo”. 

Agora a marginália enquanto Estado tinha de prover a segurança integral de sua fronteira.  Logo precisariam de armas e munições em QSP para a defesa, primeiramente, e após, para atacar inimigos. Assim foi pensado, articulado e posto em execução. Vale salientar que uma operação dessa envergadura não seria consumada sem apoio logístico direto e indireto de um estado-maior acostumado a executar planos dessa complexidade e envergadura. Fronteiras oficiais com países estrangeiros, estão sob a proteção federal; a dos estados por suas corporações policiais, Civil, Militar, Alfandegárias ( terrestres, portos, aeroportos), e PRF. O Congresso Nacional e a Presidência da República, numa imitação barata e deformada da cegueira da Justiça, desde quando a capital federal brasileira era no Rio de Janeiro, entregaram às moscas essas questões de segurança porque não afetava a sociedade civil fluminense e demais sociedades nos outros estados da nação. A questão da rebeldia fruto da pobreza no Brasil, desde as côrtes portuguesa e a do Brasil holandês ou Nova Holanda em Pernambuco, não tinha representatividade nas ditas Casas do Povo. De fato ainda padecemos dessa necessidade política. A consequência do descaso com a segurança pública redundou no crime organizado. As prisões se transformaram em universidades a serviço do crime; celas viraram quartéis-generais e gabinetes gerenciadores dos marginais. Dali partem as ordens gerais via advogados, celulares e smartphones, para a matança desenfreada assim como para a administração do tráfico de drogas entorpecentes, e outras formas delinquentes. Mata-se no Brasil um número que assusta a comunidade mundial. Nem as guerras ao redor do mundo mata tanta gente. Principalmente civis inocentes. Bala perdida é sinônimo de azar. Quase não há identificação plena dos assassinos. As pessoas são vitimadas nos carros, nas ruas, nos shoppings, nas casas e escolas, e até em igrejas. As causas principais são os confrontos diretos entre policiais e traficantes, e a disputa entre traficantes X traficantes pelos pontos de drogas e pontos de jogos de bicho migrados  para o tráfico. Correndo por fora, justiceiros se somam como executores eventuais dos assassinatos conhecidos como crime de encomenda. A lei e a ordem não dão conta da prevenção. A demanda ultrapassa a capacidade organizacional e logística do estado. Estratégias inoperantes facilitam a vida dos criminosos. É um combate inglório contra a  sociedade desvalida da proteção governamental. Temos perdido paulatinamente a luta do bem contra o mal. Familias enlutadas sofrem ações recorrentes. São bisadas com mais perdas de entes queridos. As projeções indicam que no curto prazo a tendência é de piora. Há que se ter coragem moral para ordenar um basta contra a criminalidade a custo doído. A não ser assim,  breve seremos bombardeados de cima dos morros e outeiros, sem descartar  a hipótese do uso de mísseis e artilharia pesada. 

FC

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