Aos euclidianos

freiconvento 

A manhã estava ensolarada, agradável. Um convite silencioso para um passeio comigo mesmo pela orla marinha da minha cidade; gosto de ouvir o som das ondas na rebentação… e da paisagem ao meu redor. Mas também gosto dos livros, dos folhetos, da leitura do jornal matutino. Reticente, aproximei-me da sala de leitura e na primeira estante um dos alfarrábios se me apresenta sob os altos sons silenciosos da vastidão dos muitos títulos que nunca calam: despertou-me a atenção o exemplar da COLEÇÃO O BRASIL MOÇO, seleta de Gilberto Freyre, terceira edição, 1980, José Olympio Editora. 

Na quase bíblia prendeu-me EUCLIDES E OS SERTÕES

Prosa – Ensaio Literário

Gilberto Freyre

Era natural que nos “areiais queimosos” dos sertões Euclides parasse para se retratar ossudo e romântico ao lado dos mandacarus, dos xiquexiques, dos “cabeças-de-frade”: o seu “reino” era aquele.

O “reino” a que ele próprio se havia de referir uma vez, falando meio desdenhosamente de poetas. Dessas suas palavras se serviria um tanto irônico o geólogo John Caspet Branner, com o aplauso de Afrânio Peixoto, para fazer o elogio do poeta d’Os Sertões e a crítica incisiva do seu livro:  “o poeta é soberano no pequeno reino onde o entroniza a sua fantasia”.

Os Sertões foram, na verdade,  o reino do poeta Euclides da Cunha. Sua Pasárgada, como diria Manuel Bandeira. Antes de Euclides a paisagem brasileira tivera entre os poetas e os romancistas os seus simpatizantes e até entusiastas: o maior deles José de Alencar. O autor d’Os Sertões foi o primeiro caso de verdadeira empatia. Simpatia só, não: empatia. Ele não só acrescentou-se os Sertões como acrescentou os sertões para sempre à sua personalidade e ao “caráter brasileiro” de que ficou um dos exemplos mais altos e mais vivos. Uma espécie de mártir. 

Foi nos sertões que as centenas de mãos esquerdas do magricela desajeitado que já entortara uma espada num instante de fúria – e talvez centenas de penas noutros momentos de raiva menos espetaculosas – começaram verdadeiramente a se disciplinar sob uma vocação poderosa: a de escritor em função da “paisagem brasileira“ que ficou sendo para ele mais do que a “imagem da República”  – que também teve para Euclides um sentido místico – uma espécie de prolongamento da imagem materna e, ao mesmo tempo, da própria. 

Impossivel separar Euclides dessa paisagem-mãe que se deixou interpretar por ele, e pelo seu amor e pelo seu narcisismo,  como por ninguém. 

Na descrição dos sertões, o cientista erraria em detalhes de Geografia, de Geologia, de Botânica, de Antropologia;o sociólogo, em pormenores de explicação e de diagnósticos sociais, do povo sertanejo. Mas para o redimir dos erros da técnica, havia em Euclides da Cunha o poeta, o profeta, o artista cheio de intuições geniais. O Euclides que descobrira na paisagem e no homem dos sertões valores para além do certo e do errado da gramática da Ciência.

O poeta viu os sertões com um olhar mais profundo que o de qualquer geógrafo puro. Que o de qualquer simples  geólogo ou botânico. Que o de qualquer antropólogo.

O profeta clamou pelos sertões: deu-lhes um significado brasileiro, ao lado do puramente paisagístico. Ou do indistintamente humano. 

O artista os interpetrou em palavras cheias de força para ferir os ouvidos e sacolejar a alma dos bacharéis pálidos do litoral com o som de uma voz de moça e às vezes dura, clamando a favor do deserto incompreendido, dos sertões abandonados,  dos sertanejos esquecidos.

Porque ele foi a voz do que clamou a favor do deserto brasileiro: endireitai os caminhos do Brasil! (O Brasil era o seu Senhor”.) Os caminhos entre as cidades e os sertões. Esta foi a grande mensagem de Euclides:  que era preciso unir-se  sertão com o litoral para salvação – e não apenas conveniência – do Brasil. O sertão era “salvador”: salvador dele, Euclides, e salvador do Brasil. Mensagem transmitida aos homens da República de 1889 em palavras de artista interessado pela política. Mensagem deformada depois pelos que fizeram dos sertões em si – e não de sua comunicação com o litoral agrário – quase uma mística, uma espécie de seita protestante que acreditasse poder salvar o Brasil com a água dos açudes do Nordeste – nos quais se têm talvez empregado somas em desproporção com o seu valor social para a nação brasileira. A Euclides como que repugnava na vegetação tropical e na paisagem dominada pelo engenho de açúcar o gordo, o arredondado, o farto, o satisfeito, o mole das formas; seus macios como que de carne; o pegajento da terra; a doçura do massapê. Atraía-o o anguloso, o ossudo, o hirto dos relevos ascéticos ou, quando muito, secamente masculinos, do “agreste” e dos “sertões”. Dos tipos e dos cenários sertanejos, ele destaca os relevos mais duramente angulosos, em palavras também duras, quase sem fluidez nenhuma e como que assexuais. Palavras às vezes enfeitadas de arabescos glorificadores, exageros de idealização monumental, lugares-comuns de geometria oratória: “beleza olímpica”, “primor de estatuária”, “linhas ideais de predestinado”, “olhar, num lampejo viril, iluminando-lhe a fronte”. Nunca porém sem seu relevo. Sempre impressionantes e quase sempre vigorosos – de um vigor novo na língua: um vigor escultural.

Porque ele é, na verdade, uma espécie de El Greco ou de Alonso Berruguete da prosa brasileira: tira das palavras o máximo de recursos esculturais, embora com sacrifício, mais de uma vez, de qualidades de discriminação e de inflexäo – as grandes qualidades, entre os mestres brasileiros seus contemporâneos, de Machado, de Nabuco e do próprio Pompéia. Qualidades quase impossíveis dentro do gosto do brônzeo, do escultural, do geométrico, do hirto, do anguloso, em que Euclides se requinta como sob o domínio de uma obsessão quase mística: a de evitar a carne, suas curvas, sua inconstância, o momento que passa, a banalidade cotidiana. (De Vida, Forma e Cor, 1a ed., Rio, 1962.)

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